Durante muito tempo, a menopausa foi tratada como um problema que deveria ser escondido. Hoje, cada vez mais mulheres defendem informação, qualidade de vida e o direito de atravessar essa fase sem culpa, estigma ou renúncias ao próprio bem-estar.
Ela interrompe uma reunião para ligar o ventilador. Dorme mal há meses. Esquece compromissos que antes administrava sem dificuldade. Chora por motivos que nem sempre consegue explicar. Ou simplesmente perdeu a paciência para aceitar situações que antes tolerava em silêncio. Durante anos, a resposta para tudo isso foi quase automática: “é a menopausa”.
A frase, muitas vezes dita em tom de brincadeira ou desqualificação, ajudou a transformar uma etapa natural da vida feminina em sinônimo de descontrole emocional. No entanto, a ciência apresenta uma realidade diferente.
“A menopausa não é um colapso. É uma transição biológica complexa, marcada por mudanças hormonais que afetam praticamente todos os sistemas do organismo, do cérebro aos ossos, da pele ao coração”, explica Izabelle Gindri, especialista em saúde hormonal, PhD em Engenharia Biomédica pela University of Texas at Dallas (UTD), farmacêutica, cientista, cofundadora e CEO da bio meds Brasil.
Mais do que alterações hormonais
Nem sempre é fácil separar o impacto dos hormônios das mudanças que costumam acontecer nesse período da vida. Além disso, essa fase frequentemente coincide com outras transformações importantes, como filhos deixando a casa, pais envelhecendo, consolidação da carreira, mudanças nos relacionamentos e uma nova forma de enxergar a própria vida.
A menopausa é confirmada após 12 meses consecutivos sem menstruação. Antes disso, ocorre a perimenopausa, período em que os níveis de estrogênio e progesterona variam intensamente. É justamente nessa fase que muitas mulheres relatam a sensação de não reconhecer mais o próprio corpo.
Sintomas vão muito além das ondas de calor
As ondas de calor são o sintoma mais conhecido, mas estão longe de ser o único. Alterações no sono, ansiedade, dificuldade de concentração, redução da libido, ressecamento vaginal, fadiga persistente, aumento da gordura abdominal e oscilações de humor podem surgir ao mesmo tempo e comprometer significativamente a qualidade de vida.
Apesar disso, muitas mulheres ainda escutam que “isso passa”, “faz parte da idade” ou que precisam aprender a conviver com o desconforto. Esse entendimento, porém, já não reflete o conhecimento atual sobre a menopausa.
Terapia hormonal volta ao centro das discussões
Nos últimos anos, a terapia de reposição hormonal voltou a ocupar um papel importante no tratamento dos sintomas da menopausa, após um longo período marcado por receios e desinformação.
Os números mostram que o tema deixou de ser um assunto restrito e passou a integrar as discussões sobre saúde pública. Estima-se que mais de 1 bilhão de mulheres no mundo estejam na pós-menopausa, número que cresce com o aumento da expectativa de vida. Cerca de 75% apresentam sintomas vasomotores, como ondas de calor e suores noturnos. Além disso, aproximadamente um quarto relata manifestações intensas o suficiente para afetar o trabalho, o sono, a vida sexual e a saúde mental.
Depois de duas décadas de debates sobre a segurança da terapia hormonal, as principais sociedades médicas internacionais passaram a recomendar uma abordagem individualizada. As diretrizes mais recentes da International Menopause Society (IMS) reforçam que a terapia hormonal continua sendo o tratamento mais eficaz para aliviar os sintomas vasomotores e também contribui para prevenir a perda óssea em mulheres elegíveis. A indicação, entretanto, deve considerar idade, tempo desde a menopausa, histórico clínico e fatores de risco.
Segundo Izabelle Gindri, o entendimento científico evoluiu de forma significativa.
“Quando indicada para mulheres saudáveis, especialmente antes dos 60 anos ou nos primeiros dez anos após a menopausa, a reposição hormonal apresenta benefícios que frequentemente superam os riscos. Ela reduz as ondas de calor, melhora o sono, protege a saúde óssea, ajuda na lubrificação vaginal e pode devolver qualidade de vida a mulheres que convivem diariamente com sintomas incapacitantes”, afirma.
Ainda assim, a terapia não representa uma solução única. O tratamento deve ser individualizado e considerar histórico familiar, doenças pré-existentes, estilo de vida e objetivos de cada paciente. Em determinadas situações, terapias não hormonais também oferecem bons resultados.
Outro avanço importante está na personalização do tratamento, permitindo estratégias adaptadas às necessidades de cada mulher. Essa mudança ganhou força após a reavaliação dos resultados do histórico estudo Women’s Health Initiative (WHI).
Um novo olhar sobre a menopausa
Talvez a maior transformação não esteja apenas nos tratamentos disponíveis, mas na maneira como a menopausa vem sendo encarada.
Pela primeira vez, uma geração de mulheres se recusa a aceitar que envelhecer signifique perder espaço. Elas continuam ocupando cargos de liderança, empreendendo, iniciando novos relacionamentos, redescobrindo a sexualidade, praticando atividades físicas e reivindicando protagonismo em uma sociedade que, por muito tempo, valorizou apenas a juventude feminina.
“Falar sobre hormônios deixa de ser apenas uma conversa médica. Torna-se uma discussão sobre autonomia, saúde, mercado de trabalho, autoestima e direitos. Porque talvez aquela mulher considerada ‘difícil’ apenas tenha deixado de silenciar desconfortos, de aceitar sobrecargas e de colocar as necessidades de todos acima das suas”, conclui Izabelle Gindri.
A menopausa muda os hormônios, mas também transforma prioridades. Em vez de representar um problema, essa fase pode marcar o início de um novo protagonismo feminino.
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