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Uso do fio dental pode reduzir risco de AVC e arritmias

Tempo de Leitura: 4 minutos

Muita gente escova os dentes diariamente, mas deixa o fio dental de lado. O que poucos sabem é que esse hábito não ajuda apenas a prevenir problemas na boca. Pesquisas têm mostrado que a saúde da gengiva pode influenciar o organismo como um todo, inclusive o coração e o cérebro.

Um estudo publicado em abril de 2026 na revista científica Stroke, da American Heart Association, encontrou uma associação entre o uso regular do fio dental e uma menor ocorrência de alguns tipos de acidente vascular cerebral (AVC) e de fibrilação atrial, uma alteração no ritmo dos batimentos do coração que aumenta o risco de formação de coágulos e pode provocar um AVC.

Apesar dos resultados, os próprios pesquisadores destacam que o estudo não comprova que usar fio dental previna doenças cardiovasculares. A pesquisa apenas observou que essas condições foram menos frequentes entre as pessoas que relataram manter esse hábito.

A escova limpa os dentes, mas não alcança todos os espaços

Embora seja indispensável para a higiene bucal, a escova não consegue limpar completamente as áreas entre os dentes e a região próxima à gengiva. Nesses locais, é comum o acúmulo de placa bacteriana, uma película formada por bactérias que se deposita sobre os dentes ao longo do dia.

Sem a limpeza adequada, essa placa pode causar gengivite, uma inflamação na gengiva que provoca sangramento, vermelhidão e inchaço. Quando o problema não é tratado, pode evoluir para a doença periodontal, que compromete os tecidos e os ossos responsáveis pela sustentação dos dentes.

Imagem: Magnific

Por isso, o uso diário do fio dental continua sendo uma das principais recomendações dos dentistas para manter a saúde da boca.

O que a boca tem a ver com o coração?

A relação entre saúde bucal e doenças cardiovasculares vem sendo estudada há vários anos. Uma das hipóteses é que as inflamações provocadas por problemas na gengiva possam ultrapassar a boca e atingir outras partes do organismo por meio da corrente sanguínea.

Segundo o cirurgião-dentista Gabriel Paternostro, especialista em Reabilitação e diretor clínico da Oral Unic, em Salvador, essa conexão já é conhecida pela ciência.

“A presença de doenças gengivais pode desencadear processos inflamatórios que ultrapassam a cavidade oral. Quando há acúmulo de placa bacteriana e inflamação periodontal, substâncias inflamatórias podem atingir a corrente sanguínea e contribuir para alterações sistêmicas”, explica.
Isso não significa, porém, que uma doença na gengiva cause diretamente problemas no coração. O que os estudos indicam é que a inflamação pode fazer parte de um conjunto de fatores relacionados à saúde cardiovascular.

O que a pesquisa descobriu

O estudo acompanhou 6.278 adultos durante aproximadamente 25 anos. Depois de considerar fatores que também influenciam o risco de doenças cardiovasculares, como hipertensão, diabetes, colesterol elevado, tabagismo, excesso de peso, escolaridade e hábitos de higiene bucal, os pesquisadores observaram que quem utilizava fio dental regularmente apresentou menor ocorrência de alguns problemas de saúde.

Em comparação com quem não tinha esse hábito, houve uma frequência:

• 22% menor de AVC isquêmico, que acontece quando o fluxo de sangue para uma parte do cérebro é interrompido;
• 44% menor de AVC cardioembólico, provocado por um coágulo que se forma no coração, entra na corrente sanguínea e bloqueia um vaso no cérebro;
• 12% menor de fibrilação atrial, uma alteração no ritmo dos batimentos cardíacos que favorece a formação de coágulos.

Os pesquisadores não encontraram a mesma associação para outros tipos de AVC, como o trombótico e o lacunar.

O fio dental previne AVC? A resposta ainda é não

Embora os resultados tenham chamado a atenção, eles precisam ser interpretados com cuidado.

A pesquisa é do tipo observacional. Isso significa que ela identificou uma relação entre o uso do fio dental e a menor ocorrência de alguns problemas de saúde, mas não demonstrou que um fato tenha sido a causa do outro.

Também é possível que as pessoas que usam fio dental regularmente tenham outros hábitos saudáveis, como alimentação equilibrada, prática de atividade física e acompanhamento médico, que também ajudam a proteger o coração. Mesmo levando essas diferenças em consideração, esse tipo de estudo não consegue eliminar completamente essa possibilidade.

Imagem: IAChatGPT

Gabriel Paternostro reforça esse cuidado na interpretação.

Os estudos mostram associação, não causalidade direta. Ou seja, o fio dental não é um fator isolado de prevenção de AVC, mas faz parte de um conjunto de hábitos de saúde que ajudam a reduzir processos inflamatórios no organismo”, afirma.

O fio dental faz parte de um conjunto de cuidados

Os benefícios do fio dental para a saúde bucal são amplamente conhecidos e comprovados. Seu uso ajuda a prevenir gengivite, doença periodontal, mau hálito e outros problemas que a escovação sozinha não consegue evitar.
Quando o assunto é proteger o coração e o cérebro, porém, ele deve ser visto como parte de um conjunto de hábitos saudáveis.

Controlar a pressão arterial, o diabetes e o colesterol, manter uma alimentação equilibrada, praticar atividade física regularmente, não fumar e fazer acompanhamento médico continuam sendo as medidas mais importantes para reduzir o risco de doenças cardiovasculares.

Na saúde bucal, a recomendação permanece a mesma.

“A recomendação é simples e eficaz: escovação adequada, uso diário do fio dental e consultas odontológicas regulares. São atitudes que parecem pequenas, mas que têm impacto significativo na saúde ao longo da vida”, conclui Gabriel Paternostro.

As consultas periódicas ao dentista permitem identificar precocemente cáries, gengivite e doença periodontal, evitando complicações. Já o estudo amplia o conhecimento sobre a relação entre a boca e o restante do organismo, mas novas pesquisas ainda serão necessárias para confirmar se existe uma relação direta entre o uso do fio dental e a redução do risco de AVC e de alterações no ritmo do coração.

 

 

Fonte: clique aqui.

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