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A cada ano de eleição no Brasil, somos lembrados de práticas que parecem nos manter no século passado. Na eleição de 2022, por exemplo, teve empresário que demitiu trabalhador que não votou em Bolsonaro. Isso sem falar que a compra de votos segue ocorrendo em muitos rincões do país. Mas há uma dessas tradições obscuras que talvez não seja lembrada com frequência. Aquela de que, em ano de eleição, o desmatamento aumenta.
Sim, pode parecer uma correlação absurda, ou sem causalidade, mas estão aqui algumas evidências. Fernando Henrique Cardoso, em 1995, primeiro ano de seu governo, viu o desmatamento da Amazônia dobrar, chegando a 29,1 mil km²; até hoje o número mais alto da série histórica (importante lembrar que os dados de desmatamento são publicados no meio do ano, contabilizando os 12 últimos meses – ou seja, pega o período eleitoral do ano anterior, que coincide com os meses mais secos da Amazônia). Grandes saltos também ocorreram no primeiro ano do governo Lula em 2003 e no primeiro ano de Bolsonaro em 2019 (vejam o gráfico abaixo).
Um dos governos que não seguiu a tendência foi o de Dilma Rousseff. Em seu ano inaugural, 2011, ela pode anunciar a continuidade da redução do desmatamento na Amazônia, algo que se deve à implementação da Política de Prevenção e Combate ao Desmatamento (PPCDAM), criada em 2004. A queda seguiu ocorrendo até 2012, quando o Congresso optou por alterar o Código Florestal, anistiando desmatamentos passados. Foi a senha para mais destruição.
Estamos falando do desmatamento da Amazônia, pois este é o bioma para o qual temos os dados mais longevos e consolidados. Desde 1988, o sistema Prodes, criado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), monitora a perda da floresta amazônica. Os monitoramentos contínuos da Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal começaram apenas há uma década.
Porém, já temos pelo menos um estudo apontando que a tendência de aumento do desmatamento é também observada em outros biomas. Liderada por Patrícia Ruggiero, do Departamento de Ecologia da Universidade de São Paulo (USP), a pesquisa publicada em 2021 no periódico Conservation Letters olhou dados do MapBiomas de 1991 a 2003 em 2.253 municípios da Mata Atlântica. Os resultados mostram um desmatamento adicional em anos de eleição.
É no mínimo intrigante! Por que temos essa tendência tão nefasta contra nossas florestas? A hipótese levantada pelo estudo da USP e também por pessoas com quem conversei nestes anos é que, em ano de eleição, a aplicação da lei se torna um pouco mais branda, especialmente nos estados e municípios. Com medo de melindrar possíveis eleitores, os governos de ocasião pegam mais leve.
Outra razão são os próprios investimentos estatais que, como sabemos, crescem significativamente nos anos de pleito. São principalmente estradas, mas também represas, viadutos e outras vistosas obras de infraestrutura que contribuem para injetar dinheiro na economia e, ao mesmo tempo, derrubar algumas árvores.
Se a tendência de destruição já é algo que deveria preocupar, coloquemos então sobre a mesa a perspectiva de que acabamos de entrar no período de Super El Niño. Há uma semana, a Organização Meteorológica Mundial (OMM), confirmou que este fenômeno climático é um evento de alta intensidade. A superfície do mar deve ficar, na média global, até 3 graus mais quente, o que significa que teremos temperaturas altas e eventos extremos em todo o globo.
“Espera-se que praticamente todas as áreas terrestres do planeta apresentem temperaturas mais altas do que o normal. Em conjunto, isso pode quebrar todos os recordes sazonais – e provocar efeitos ainda mais graves em todo o mundo. Estamos em território desconhecido”, disse, há poucos dias, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterrez. As maiores anomalias serão registradas a partir de agora, agosto, e devem durar até outubro, possivelmente se estendendo até março do ano que vem, de acordo com a OMM.
Perigosa coincidência: eleições com Super El Niño
A ventania no Rio de Janeiro certamente ficará como marco imagético para os eventos extremos que se aproximam. Mas não se surpreendam se, a partir de agora, surgirem cada vez mais notícias sobre secas na Amazônia e enchentes no Rio Grande do Sul.
Assim como estamos vendo na Europa, as altas temperaturas e a estiagem trazidas pelo El Niño estão gerando queimadas totalmente fora de controle. Com mais seca na região Norte brasileira, a tendência é exatamente o aumento de queimadas.
A utilização do fogo como instrumento de grilagem ou de consolidação de áreas invadidas em florestas públicas é algo que temos visto nos últimos anos. Foi o que ocorreu entre 2018 e 2019 quando Bolsonaro se tornou presidente. Esperançosos de um enfraquecimento na fiscalização ambiental, infratores se sentiram livres para invadir e queimar.
A aposta dos criminosos estava certa. Apenas nos dois primeiros meses do governo Bolsonaro, o número de fiscalizações ambientais caiu 29%. Além disso, o Ibama, que já vinha sendo sucateado pela falta de novos concursos de contratação de funcionários, se viu engessado com um despacho do então presidente que anulou a cobrança de milhões de reais em multas.
O que poderia ser diferente desta vez? De que maneira deveriam atuar os governos em nível federal e estadual para não enviar sinais de incentivo e evitar que um novo salto no desmatamento ocorra? E qual será o papel dos candidatos ao Executivo para que não ajudem a riscar o fósforo e a, literalmente, incendiar o país?
Começo com pontos positivos. Neste momento, já existem ótimas iniciativas de brigadas comunitárias para proteção de unidades de conservação e territórios indígenas. Vimos notícias promissoras em Goiás e Mato Grosso de queimas controladas – uma medida preventiva para reduzir o material seco antes da chegada do fogo.
Porém, se conter as chamas já é um enorme desafio, barrar os mal intencionados pode ser ainda mais complicado. Por isso a responsabilidade dos candidatos é gigante. Promessas de anistia a desmatadores ou de afrouxamento na legislação ambiental são música aos ouvidos dos grileiros, traficantes de madeira e ouro.
Seja quem for o próximo presidente da República, começar o novo governo com florestas pegando fogo e grileiros afiando a moto-serra pode ser uma dor de cabeça. Por um lado, temos os impactos locais cada vez mais sentidos pela população: o aumento do desmatamento se reverte em falta de água nas lavouras e nas cidades, problemas de saúde com as fumaças de queimada, além de mais violência no campo.
Por outro lado, os próximos anos serão essenciais para posicionar o Brasil na grande transição que está ocorrendo, permitindo que os mercados mais exigentes, como os da União Europeia, continuem abertos aos produtos brasileiros. Até 2030, espera-se que os países atinjam seu pico de emissões de gases de efeito estufa. Ou seja, para chegar até 2050 com uma economia de baixo carbono, como prometido no Acordo de Paris, temos que manter a rota de redução do desmatamento conquistada no último ano.
Isso é mais do que uma utopia globalista. Significa que adotar tecnologias e políticas sustentáveis nos tornará aptos a competir no mercado internacional e, ao mesmo tempo, a gerar um crescimento saudável para as pessoas, protegendo os nossos biomas.
Para saber mais (sobre como o Brasil conseguiu reduzir o desmatamento nos últimos 20 anos):
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