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Michelle Bolsonaro não é a exceção, mas a nova regra

Michelle Bolsonaro está brilhando. Domina as manchetes, posts, análises e as redes sociais nos últimos dias. A cada três rolagens no feed, lá está ela: ensinando o marido a beijar (?); sentada ao lado da mão dourada que sinaliza “eu te amo” em libras e da estrela de Davi – símbolo do judaísmo –  descascando Flávio naquele primoroso vídeo; encerrando suas atividades como líder do PL Mulher; fundando o “Imparáveis”, um novo movimento “misto de fandom com cluster mobilizador político” – segundo sua assessoria disse à revista Veja. 

Os especialistas se desdobram para analisar o fenômeno como dá. Prever os passos da família Bolsonaro dentro de uma sequência lógica sempre foi um desafio, assim como é difícil medir proporções e estragos do olho do furacão, enquanto ele acontece. 

Mas essa novela é suculenta demais pra não engajar. Será Michelle a responsável pela derrocada de Flávio Bolsonaro? Estaria a ex primeira-dama pensando em se candidatar à presidência? Vai desistir da candidatura ao Senado? Vai se rebelar, divorciar do marido, romper com a família e se erguer como a voz das mulheres cristãs conservadoras (minha teoria preferida)? Está falando em nome de Jair, como argumenta? Ou está aproveitando que ele não pode falar publicamente para tomar suas próprias decisões pela família, fazendo esse casamento sofrido render ao menos capital político? 

A cientista política Ana Carolina Evangelista, pesquisadora do Iser (Instituto de Estudos da Religião) escreveu um artigo muito interessante para a Folha de S. Paulo sobre esse imbróglio; indico a leitura. No texto ela defende que o “aparente conflito entre Michelle e Flávio é método de mobilização do bolsonarismo” e o vídeo de Michelle faz parte de uma peça bem construída de propaganda do próprio PL, partido que comemora a repercussão orgânica e viral. Estamos todos falando disso, afinal. 

Aliás, sobre o envolvimento de Flávio Bolsonaro com o ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro é que não se fala mais. 

É claro que o PL, Michelle e a extrema direita brasileira sabem que precisam conquistar o eleitorado feminino, que tende a ser mais progressista, segundo pesquisas realizadas no Brasil e em outros lugares do mundo, e não engole muito bem o comportamento misógino de Jair e seus filhos 01, 02, 03 e 04. 

Nesse sentido, a ex-primeira-dama sempre fez o papel de sair em público para atenuar os escândalos envolvendo o marido. Vocês se lembram do episódio em que Bolsonaro, em 2022, disse em entrevista a um podcast que havia “pintado um clima” com adolescentes venezuelanas e Michelle foi se encontrar com as meninas depois? O encontro, ao lado de Damares Alves, aconteceu a portas fechadas, em segredo, na casa de um pastor em Brasília. E depois Michelle saiu dizendo que o marido falava demais, que dizia “pintar um clima” pra tudo. 

Ah, esses meninos levados que falam demais, ainda bem que têm mulheres virtuosas para edificar seus lares.

Mas tem um outro ponto importante aqui. As movimentações de Michelle se conectam a um novo momento da extrema direita internacional. 

Nos dias 20 e 21 de maio, aconteceu nos Estados Unidos, curiosamente sem chamar a atenção da imprensa, a primeira edição do CPAC Mulheres, o “CPAC Women Warriors”. Como define o site cor de rosa: “um movimento, não apenas uma reunião. Mais do que uma conferência — um chamado à ação”. 

O CPAC, Conservative Political Action Conference, é o maior e mais tradicional evento de articulação política da direita no mundo, onde se reúnem políticos, ativistas e influenciadores para debater estratégias. Fundado nos EUA na década de 70, hoje tem edições por todo o mundo. Eduardo Bolsonaro foi o responsável pelas edições brasileiras do evento até se refugiar nos EUA. 

Pois. Durante dois dias, um desfile de mulheres próximas à administração Trump, com sua estética Mar-a-Lago – vestidos fechados em tons pastéis e longos cabelos lisos – subiram ao palco para falar que é hora das mulheres conservadoras entenderem seu valor, perderam a vergonha de falar o que pensam e erguerem suas vozes para defender o projeto de nação e os valores cristãos. 

Especialmente, elas devem fazer isso antes das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, em novembro, que decidirão quem comanda o Senado e o Congresso. 

Uma pesquisa recente do The Economist mostra que Trump encontra índices de reprovação mais altos entre mulheres racializadas e mais baixos entre homens brancos. Ainda não dá pra dizer se o apelo para mulheres conservadoras incidir em grupos de bairros e igrejas tem potencial. Mas essa primeira edição do evento certamente vai nessa direção, de tentar criar uma rebelião das “belas recatadas e do lar” 

A apresentadora do evento foi a ex-assessora de comunicação da Casa Branca e pesquisadora sênior da American Conservative Union Foundation, a entidade por trás da CPAC, Mercedes Viana Schlapp. Entre as convidadas, estavam congressistas republicanas, assessoras de Trump, cantoras country e influencers “tradwives”. 

Mesa após mesa, as convidadas falavam um pouco sobre seus trabalhos e ativismo e muito sobre que o mais importante era cuidar dos filhos, do marido, da casa e não faltar aos cultos de domingo. 

Se colocavam como mulheres “empoderadas”, que botam ordem em casa e na Casa Branca, porque “se deixar só com os meninos já viu, eles fazem bagunça”, o que nada tem a ver com feminismo como fazem questão de dizer. 

São mulheres “virtuosas”, aquelas que segundo a Bíblia edificam suas casas. Erguem suas vozes e se tornam leoas na hora de defender seus valores cristãos, xenófobos, muitas vezes supremacistas brancos, suas teorias da conspiração e seus filhos contra o projeto de destruição da esquerda, mas são submissas aos maridos e aos governantes. 

Afinal, uma boa mulher deve saber a hora de falar, e a hora de se calar. 

Cada mulher que passou pelo palco do CPAC Women Warriors citou nominalmente seus muitos filhos e incentivou as presentes a alargarem suas proles. É difícil manter uma família grande e ainda trabalhar pelas causas, diziam, mas Deus opera milagres.

Apesar da pouca importância dada pela mídia, esse é um movimento muito importante e estratégico, de uma extrema direita que entendeu que não pode mais ignorar as mulheres e então tem moldado suas próprias versões de liderança, dentro das leis de deus e do patriarcado. 

Aliás, algo que me chamou a atenção é como as participantes se uniam em defesa do que é ser “mulher de verdade” em oposição às “pessoas trans”. Para elas, a direita defende as “mulheres de verdade” enquanto a esquerda as bota em risco, na medida em que defende “homens que dizem ser mulheres”. 

No fim das contas, talvez a pergunta mais interessante não seja se Michelle está “brigando” com Flávio, se está se descolando de Jair ou se prepara um voo solo.

A pergunta é outra: a serviço de que projeto tudo isso está sendo encenado? Porque, com um pouco mais de distância, o que aparece – mais uma vez – não é exatamente uma ruptura, mas uma sofisticada atualização de linguagem e de estratégia.

Não à toa, o movimento de Michelle acontece justamente num momento em que a extrema direita internacional decidiu mirar as mulheres de forma muito mais organizada, consciente e ambiciosa. O primeiro CPAC Women Warriors aponta nessa direção. E Michelle não surge como exceção brasileira, mas parte de uma tendência transnacional.

É uma aposta de que as mulheres conservadoras precisam deixar de ser apenas base moral, eleitoral e doméstica para se tornarem também rosto, voz, influência e capilaridade de um projeto de poder.

Fonte: clique aqui.

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