Na semana em que a dança ganha destaque, em razão do Dia Internacional da Dança, celebrado em 29 de abril, um projeto gratuito com aulas de dança voltadas para mulheres tem chamado atenção em Dias D’Ávila, na Bahia.
A iniciativa segue em expansão, com novas modalidades previstas, duas turmas ativas e lista de espera, o que evidencia a alta procura. As aulas foram planejadas para se adaptar à rotina feminina, com encontros às 8h, após levar os filhos à escola, e às 18h, no retorno do trabalho, facilitando a adesão e o acesso ao cuidado.
Mais do que exercício, a proposta se consolida como um espaço de cuidado. Ao unir movimento e convivência, o projeto tem ajudado mulheres a lidar com desafios emocionais e a resgatar a relação com o próprio corpo.
Da experiência pessoal ao cuidado coletivo
A trajetória da professora Leina Alves está diretamente ligada à proposta. Aos 43 anos, ela carrega uma vivência marcada pela superação.
“Danço desde os meus 15 anos e hoje com 43 vi uma grande evolução em mim. E não falo de técnica ou de teoria, mas a saúde física e mental, de vivência, pois a dança me resgatou de um processo depressivo em estágio avançado. Onde vi o meu corpo mudar bruscamente sem entender o que estava acontecendo e fui trazida de volta. Sou a prova viva do que a dança pode fazer.”
A experiência pessoal motivou o aprofundamento profissional. Bacharel em Educação Física, Leina se especializou em Anatomia Feminina e passou a estudar Psicanálise. Assim, passou a integrar conhecimento técnico e sensibilidade no trabalho.
Movimento, mente e acolhimento
Segundo a psicóloga Graciela Freitas, que também participa do projeto, os efeitos vão além do físico.
“A dança é uma ferramenta terapêutica poderosa, que integra mente e corpo e promove autoconhecimento a partir das sensações físicas que se transformam em consciência emocional. O movimento amplia a consciência corporal e permite a liberação de sentimentos que muitas vezes não conseguimos verbalizar.”
Além disso, o ambiente coletivo fortalece o cuidado emocional. “Ambientes como esse são seguros, sem julgamentos, e permitem troca entre mulheres. É um momento ‘só seu’, algo raro na rotina de quem vive múltiplos papéis. A dança nos convida a habitar o próprio corpo com mais cuidado, respeito e acolhimento”, afirma Graciela.
Rotina transformada
Na prática, os efeitos já são percebidos pelas mulheres que participam ativamente das aulas. Marta Janaína, de 54 anos, mãe de três filhos e professora da educação infantil, resume a mudança.
“Me sinto mais leve. Está sendo muito importante para mim, porque faz bem para a saúde mental, física e social. A cada aula, volto para casa com mais leveza no corpo. No início não foi fácil, mas hoje já sinto falta quando não tem. Tô amando”, comenta Marta.
Projeto amplia acesso ao cuidado
O coordenador do projeto, Fábio Castro, explica que a iniciativa integra o programa Virando o Jogo, desenvolvido pela Prefeitura, por meio da Secretaria de Esporte, Cultura e Lazer (SEMEL) e da Secretaria de Educação e Cultura (SEDUC). Inicialmente voltado para crianças e adolescentes, o projeto foi ampliado após demanda da comunidade.
“Os pais e responsáveis começaram a perguntar sobre atividades para adultos. A partir disso, ampliamos o programa para homens e mulheres a partir dos 18 anos. Hoje, temos atividades como boxe, tênis e, mais recentemente, a dança”, conta Fábio.
Segundo ele, a procura tem crescido, principalmente entre mulheres que buscam um espaço seguro para cuidar da saúde. Muitas chegam por recomendação médica, especialmente por questões de saúde mental. “Aqui, elas encontram integração, trocam experiências e conseguem se expressar. A atividade física também é uma forma de comunicação e cuidado.”
Corpo em movimento, saúde em construção
O médico cardiologista Vitor Bruno Teixeira de Holanda reforça que a dança oferece benefícios que vão além do sistema cardiovascular. Segundo ele, a atividade também impacta positivamente a saúde cognitiva e emocional, o que gera efeitos indiretos na saúde do coração. Ele afirma que a prática pode ser adaptada para diferentes perfis, incluindo pessoas com limitações físicas, desde que respeitadas as condições individuais.
Entre os principais efeitos fisiológicos, o cardiologista destaca o aumento da capacidade respiratória e da aptidão cardiovascular, além da redução do colesterol, do peso corporal e dos níveis de glicose no sangue. “A atividade também contribui para melhorar a circulação sanguínea e reduzir substâncias prejudiciais ao organismo”, enfatiza o cardiologista.
Segundo a professora, durante as aulas, diferentes ritmos são utilizados, o que mantém o interesse e estimula a participação. Além disso, o ambiente favorece a expressão livre, sem julgamentos.
“Na saúde comprovadamente, já entendemos que de acordo com os estudos científicos, a dança contribui na reabilitação, fortalecimento muscular, a produção de hormônios que auxiliam no bem-estar e na melhora da saúde mental. Sendo inclusive, instrumento de cura para processos depressivo e no tratamento de atípicos”, enfatiza Leina.
Para Fábio Castro, a iniciativa amplia o conceito de cuidado. A dança passa a integrar práticas de promoção da saúde.
Em Dias D’Ávila, o movimento ganha outro significado. Entre passos e pausas, o corpo encontra linguagem. E, muitas vezes, é nele que começam os recomeços.
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