Será que a ideia de que os EUA estão por trás da Lava-Jato é apenas uma narrativa usada para livrar a cara de criminosos? Enquanto Natalia conversa com a autora de um livro de quase 700 páginas sobre uma das empresas investigadas na operação, Amanda volta a Curitiba em busca de antigas fontes da época da Lava-Jato. Um novo documento chega às mãos de Natalia, que decide pegar um avião com destino a Nova York em busca de uma agente do FBI.
Ouça agora o episódio 4!
Confidencial: as digitais do FBI na Lava Jato
Confira abaixo o roteiro do episódio na íntegra
EPISÓDIO 04: OS FINS E OS MEIOS
[Ricardo Terto]
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[Entrevista Malu Gaspar]
Ficou provado que o Moro é parcial? Acho que dá para dizer que o Moro era parcial no caso do Lula. Divulgou grampo que não estava com autorização, delação do Palocci. Acho que configura sim uma parcialidade. Mas existe um problema de competência? Não existe. O Supremo autorizou a prisão em segunda instância. Depois ele desautorizou. Mas a culpa é do juiz de Curitiba? Não. A culpa não é do juiz de Curitiba.
[Natália Viana]
A culpa é do Supremo.
[Entrevista Malu Gaspar]
A culpa é do Supremo, que depois desautorizou. Você teve um ministro do Supremo impedindo a posse de um ministro, que era o Lula. Foi nomeado para ser ministro da Casa Civil. Ele impediu a posse do Lula a partir de um áudio que a Lava Jato divulgou, já com o grampo fechado. E o Gilmar Mendes veio e suspendeu a posse do Lula. A culpa é da Lava Jato? Tem várias culpas aí para você distribuir. Agora dizer que isso é uma perseguição a uma pessoa… Os processos históricos são muito complexos.
[Natália Viana]
Totalmente.
[Entrevista Malu Gaspar]
E isso é uma simplificação grosseira e burra. E interesseira. E ideológica.
Trilha sonora de fundo em clima de suspense, num crescente.
[Natália Viana]
Essa voz que escutamos é a da jornalista Malu Gaspar, que conhecemos no episódio anterior. Tem muita gente que acredita que a Lava Jato foi uma grande armação contra o presidente Lula, ou contra a Petrobras. Mas isso não significa que não havia corrupção no governo petista. Muitos acreditam que uma possível interferência americana na operação é uma teoria da conspiração que desvia o foco do principal: a corrupção. Será que a ideia de que os EUA estão por trás da Lava Jato é apenas uma narrativa usada para manipular a opinião pública e livrar a cara de criminosos?
Vinheta de abertura
[Natália Viana]
Meu nome é Natalia Viana, jornalista e apresentadora da série “Confidencial: digitais do FBI na Lava Jato”. Ao lado de Alice Maciel e Amanda Audi, vou tentar descobrir como os EUA estabeleceram formas de investigar e punir casos de corrupção fora de seu território e se há outros interesses escondidos por trás da cruzada anticorrupção internacional.
Episódio 04: “Os Fins e os Meios”
Fim da vinheta de abertura:
[Natália Viana]
Eu queria entender em detalhes o quão escandalosa era a corrupção investigada durante a Lava Jato, por isso, fui conversar com a Malu Gaspar, que desenvolveu uma pesquisa extremamente rigorosa sobre a empresa Odebrecht, um dos grandes alvos da operação. Para se ter uma ideia do tamanho, no ano de 2015 a receita era de R$58 bilhões de reais, o grupo tinha presença em 26 países, sendo a mais internacional das multinacionais brasileiras, uma líder na América Latina e com presença em crescimento no continente africano. A empresa tinha até mesmo feito a ampliação do aeroporto internacional de Miami.
[Entrevista Malu Gaspar]
Então, foi uma pesquisa de três anos e meio, em que eu trabalhei com todo tipo de documento e fontes, mas eu acho importante contar que ela foi uma pesquisa feita a partir de um momento em que o caso não estava completamente desvendado, mas ele já tinha avançado a ponto de você ter uma grande quantidade de documentos e delações premiadas.
[Natália Viana]
Uma longa pesquisa que resultou em um grande livro, literalmente, são 640 páginas, com o título “A Organização”, publicado pela Companhia das Letras.
A história da Odebrecht, contada em seus bastidores mais íntimos, é um exemplo claro de como algumas empresas trabalham para corromper políticos e como alguns políticos recebem propinas de bom grado.
Quem acredita que a Lava Jato foi criada pelos Estados Unidos costuma negar que havia corrupção. Inclusive, acho que o seu livro, ele descreve muito bem, né? Havia corrupção. Mas, além de tudo, havia corrupção desde sempre, né? Você pode contar um pouquinho a evolução do esquema de corrupção da Odebrecht?
[Entrevista Malu Gaspar]
Sim, eu acho que essa é uma coisa interessante da história da Odebrecht, que é uma empresa que existe há muitas décadas, e por ser empreiteira, a natureza dela, é um tipo de empresa que lida com o governo, que lida com o setor público. Ela precisa do setor público para sobreviver. E é uma empresa que começou no Nordeste, uma empresa baiana que saiu de uma falência e foi se reerguendo aos poucos, e estava num estado periférico. Ela precisou furar um bloqueio que já havia no Brasil de grandes empreiteiras do Sudeste, e, para isso, ela precisou achar meios, um dos quais a corrupção.
E é curioso, quando você estuda a história da Odebrecht lá no começo, ela não era aceita em determinados contratos, como, por exemplo, a hidrelétrica de Itaipu, porque ela era muito pequena. Então, ela fura esse bloqueio, ela vai para São Paulo, e ela começa a se especializar naquilo que as outras empreiteiras sempre fizeram, que era pagar propina. Eles entendem que esse mecanismo de pagar propina, ele não é só um mecanismo de pagamento. Você tem que estabelecer relações de confiança, você tem que paparicar o seu cliente, você tem que pagar as contas do cara, você tem que pagar as campanhas, e você tem que conquistar o cliente, que era o que o Norberto Odebrecht estabelecia como método.
[Natália Viana]
E na Odebrecht o valor máximo era: não importa o que você tenha que fazer, a satisfação do cliente é sempre o maior objetivo. E o cliente não é um CNPJ, uma cidade, um estado, o cliente é sempre uma pessoa, ou seja, um prefeito, um deputado, um governador, o político da vez.
[Entrevista Malu Gaspar]
De modo que a Odebrecht, quando chegou no estado da arte, em que ela tinha um mecanismo super complexo, não só de pagamento, mas de manipulação de todos os agentes públicos dos quais ela dependia, ela tinha um organograma paralelo em relação ao do governo. O que eu quero dizer com isso? O presidente da Odebrecht, o dono, lidava com o presidente da República. Você tinha pessoas que lidavam com governadores. Você tinha gente que lidava só com deputados e senadores em Brasília. Então, o Departamento de Operações Estruturadas foi o paroxismo dessa tecnologia empresarial Odebrecht. Era um departamento que foi formado a partir dessa demanda de um esquema super complexo que você precisava saber como que o dinheiro trafegou, onde que ele foi parar.
[Natália Viana]
Por causa desse sistema tão sofisticado, a Odebrecht conseguiu se safar de várias investigações anteriores, mas não da Lava Jato, e nem da investigação americana. O impacto foi brutal, após quatro anos de investigação o grupo perdeu mais de 80% do quadro de funcionários e entrou com pedido de recuperação judicial. É um fato indiscutível: essas investigações só avançaram por causa da cooperação internacional.
Efeito sonoro
A Lava Jato dependeu da colaboração, em especial, da Suíça, que na época estava buscando “limpar” sua reputação de paraíso fiscal.
Efeito sonoro
E também encarava uma forte pressão do governo dos EUA com a aprovação de uma lei que obrigava todos os americanos com conta no exterior a declarar esses valores – para pagar mais impostos, claro.
[Entrevista Malu Gaspar]
Eles queriam esses impostos, eles são a maior potência do planeta, eles criaram esse Foreign Account Tax Compliance Act, que é, se você é um cidadão americano e tem valores, recursos depositados no exterior, não interessa se em paraíso fiscal ou não, você tem que informar os Estados Unidos.
[Natália Viana]
E, para azar da Odebrecht, uma de suas contas estava em nome de um laranja americano. Foi assim que a empresa acabou caindo na mira das autoridades suíças, que foram fundamentais para a evolução das investigações aqui no Brasil, pelos procuradores de Curitiba. Os procuradores suíços também foram grandes parceiros de cooperação internacional durante a Lava Jato.
Trilha sonora clima de suspense
Ouvimos no episódio anterior que houve uma “cooperação selvagem” entre autoridades brasileiras e estrangeiras e um dos casos mais emblemáticos veio justamente da Suíça. Depois de uma visita na Europa, em novembro de 2014, Deltan Dallagnol trouxe um pendrive com dados bancários de Paulo Roberto Costa, entregue por procuradores suíços. Algo que como já ouvimos contraria as regras de cooperação. Na época, o procurador Vladimir Aras, da PGR, alertou Deltan sobre a possível ilegalidade e o então procurador concluiu:
Efeito sonoro – leitura de mensagem
É natural tomar algumas decisões de risco calculado em grandes investigações.
[Natália Viana]
Mas quando entendemos que a colaboração internacional na Lava Jato nasceu na Suíça e houve um esforço dos procuradores de lá em ajudar os colegas brasileiros, de fato a história da influência americana começa a soar como uma grande conspiração. Porque afinal, a Suíça não tem nenhum interesse em destruir empresas ou políticos brasileiros.
[Entrevista Malu Gaspar]
Eu acho que os Estados Unidos entram no contexto da Lava Jato dentro desse mesmo oba-oba que houve no Brasil, muito motivado, inclusive, pelo espírito de determinadas pessoas que iam lá e falavam que era uma operação revolucionária, que estavam abalando o Brasil. Havia um amplo apoio popular, porque as pessoas estavam cansadas de corrupção. Era aquele espírito do basta, do chega, do parou, não sei o quê. E os americanos estavam lá com as contingências políticas deles e entraram na dança. Eu vejo assim. Ah, é muito pouco? Talvez. Mas não apareceu nenhuma prova até hoje de que a CIA inoculou um vírus na Lava Jato ou de que o FBI fez pelos brasileiros algumas coisas que eles não pudessem fazer sozinhos. Entendeu?
[Natália Viana]
Na autobiografia do procurador geral na época, o Rodrigo Janot, ele conta como eram os bastidores da Lava Jato em Brasília, onde estavam os processos dos investigados que tinham foro privilegiado. Eis um trecho do livro:
Alerta de leitura
“A vida de investigadores não tem aquele glamour todo que a gente costuma ver nos filmes americanos, em que, quase sempre, o certo vence o errado e os heróis voltam para casa enquanto a cidade dorme tranquila e agradecida”.
Trilha sonora em clima de tensão
Janot conta que ele e sua equipe trabalhavam uma média de doze a catorze horas por dia, com demandas não poucas vezes, avançando pelos fins de semana e feriados.
Numa equipe de 11 pessoas, cuja idade média girava em torno dos 40 anos, houve casos de isquemia, AVC, e cardiopatia grave, entre outros sérios problemas de saúde. Casamentos foram desfeitos. O que ele conta não é muito diferente do que policiais que atuaram na investigação e mesmo assessores de imprensa relatam. A Lava Jato gerou quase um burnout coletivo.
Fim da trilha sonora
Não sei se você já ficou obcecado por uma ideia ou um trabalho – bom, eu já fiquei. E era obviamente o caso destes jovens procuradores. Eles queriam limpar o país de vez da corrupção que sempre assolou nossas terras desde o descobrimento. E aí, diante de tanto esforço pode ser que os deslizes na cooperação tenham sido talvez um “mal necessário”, em nome de um bem maior. Será que a relação com os americanos funcionava numa chave “ruim com eles, pior sem eles”? Ou seja: pelo combate à corrupção tão arraigada no nosso sistema, os fins justificam os meios? Alguns podiam pensar assim, mas mesmo dentro do MPF, o uso de métodos informais e outros “atalhos” para cooperar com agentes estrangeiros não era uma unanimidade. Os investigadores brasileiros não formavam um bloco único e homogêneo, existiam divergências. Por isso, desde o comecinho desta série, estamos tentando ouvi-los, mas isso não tem sido uma tarefa fácil. Com a palavra, Amanda Audi:
[Amanda Audi]
Tá sendo um exercício de humildade, assim essa apuração, viu? Porque é só ghosting, está difícil. Essa semana, aproveitando que eu vou pro Paraná, né, eu tentei entrar em contato com todo mundo de novo, mais procuradores, mais gente da PF, aquele povo do segundo escalão que eu tinha feito a lista lá, todo mundo. Ninguém respondeu, cara, ninguém, é um absurdo isso, ninguém nem atende, ninguém nada, parece que tá rolando um… Sei lá.
[Natália Viana]
Amanda já morou em Curitiba e cobriu a Lava Jato, por isso ficou responsável por tentar entrar em contato com procuradores e delegados que ainda atuam por lá.
Efeito sonoro – material captado na chamada de embarque
Olá clientes voo Azul 4557 para Curitiba, por favor organizar fila de embarque no portão número 02.
Amanda e Stela aterrissam em Curitiba para tentar alguma entrevista com ex -integrantes da Força Tarefa que ainda estão trabalhando na capital paranaense. O método é aquele mesmo: bater na porta.
Efeito sonoro
[Amanda Audi]
A gente tá indo lá pra Justiça Federal onde é a 13ª Vara, ainda funciona lá, é onde atuava o Sergio Moro na época da Lava Jato, aí depois foi a Gabriela Hardt, depois o Appio.
[Natália Viana]
Em Curitiba, a primeira parada foi a Justiça Federal, onde durante a Lava Jato ficava a concentração de apoiadores da operação, carregando placas e cartazes, às vezes até apareciam imagens do juiz Sergio Moro vestido de Super-Homem, um verdadeiro herói nacional.
[Amanda Audi]
Eu tô até tirando uma foto aqui porque… muitas lembranças. Esse prédio com essa araucária aí na frente. A gente acabou de chegar aqui na… Na Justiça Federal, no prédio da 13ª Vara Federal de Curitiba. É onde atuava Sergio Moro na época da Lava Jato. A gente tá aqui na frente e estamos vendo a pracinha que fica na frente do prédio. Era aqui que lá atrás, acho que desde 2014 até o final tinha um povo que acampava aqui. É, nessa pracinha. E ficava direto aqui. Às vezes se revezava com outras pessoas e tal. Mas era uma galera que botava barraca aí, estendia umas bandeiras do Brasil. Sempre tinham os ambulantes vendendo bandeira do Brasil, camiseta do Brasil, com a cara do Sergio Moro. Com, sei lá, o Pichuleco, né? Que era aquele Lula vestido de presidiário. E o povo ficava aqui na frente. Porque eles tinham uma pira muito grande de ver o Sergio Moro sair pra almoçar. Quando ele chegava e saía, né? Porque às vezes ele vinha de bicicleta. E ele saía também pra almoçar com marmita. E o povo achava isso maravilhoso. Porque é um juiz muito simples. Apesar de ser juiz federal. Ele é… Gente como a gente e tal. Tinha sempre essa conversa aqui no acampamento. Então ele saía por aqui e não falava com ninguém. O pessoal batia palma pra ele, tentava falar com ele. Ele não falava. Era uma coisa assim… Era a persona dele, né? Ele ficava quietinho.
[Natália Viana]
Nessa pracinha, perto de uma grande araucária, símbolo do estado do Paraná, que o futuro político do Brasil ia se construindo. Os jornalistas esperavam junto com os manifestantes, a entrada ou saída de alguma figura importante. Às vezes uma mini coletiva de imprensa acontecia de improviso ali mesmo na frente do prédio. O lugar era sempre muito movimentado, no dia em que o ex-presidente Lula prestou depoimento, por exemplo, a polícia montou uma verdadeira operação de guerra.
[Amanda Audi]
Mas ô, eles fecharam essas ruas tudo ao redor aqui. É… Então ficou completamente vazio, só os jornalistas podiam entrar. Tinha que se cadastrar antes, era uma operação de guerra mesmo. Cheio de policial pra lá e pra cá. E sobrevoando aqui, uns helicópteros. Acho que era da polícia. Enfim, uma puta operação de segurança. Se não me engano, fechou acho que umas duas, três quadras pra lá; duas, três quadras pra cá. Era bem grande, como se fosse a Copa do Mundo, assim, que fechava o perímetro dos estádios. E aqui na frente um monte de atirador. Atirador em cima do prédio da Justiça ali. E a gente aqui esperando por qualquer… Qualquer movimentação, qualquer coisa. Lembro que na hora que veio o carrinho – os carros do Lula, né, com sua segurança, sua equipe foi extremamente rápido. Eles entraram, entraram aqui dentro. Não deu nem pra ver. Não falaram com ninguém.
[Natália Viana]
Hoje, a pracinha antes agitada voltou à tranquilidade habitual curitibana, e a comunicação quase em tempo real entre autoridades e a imprensa agora virou silêncio institucional. Com muita insistência, Amanda e Stela chegaram a ser recebidas pela assessora de imprensa da Justiça Federal e conheceram o prédio por dentro.
[Amanda Audi]
A gente é jornalista. Então, queria ver se seria possível falar com o juiz responsável pela 13º Vara agora, não sei se ele está aqui.
[Natália Viana]
Mas, mesmo com toda a atenção dispensada pelo pessoal da comunicação, nada de entrevista. A verdade é que muita gente saiu da Vara. Então, partiram para o próximo destino.
[Amanda Audi]
A gente está aqui na frente do Ministério Público Federal, na Rua Marechal Deodoro, no centro de Curitiba. Esse prédio aqui, na época, como tinha essa força-tarefa que demandava muito esforço, vieram vários procuradores de fora para cá, eles tinham muito material para analisar, muitos papéis, muita coisa. Eles alugaram uma sala nesse prédio da frente, que eu estou vendo aqui agora, que abriu um banco ali, um Itaú? Mas quando a gente vinha falar com os procuradores, essas coisas assim, era nesse outro prédio, que agora eu acho que não tem mais nada com o fim da força-tarefa. Vamos entrar lá e tentar falar com alguém.
Eu vim falar com a Caroline da comunicação, meu nome é Amanda. Eu tenho o WhatsApp dela aqui. Mandei uma mensagem, vamos ver. Deixa eu te perguntar, você sabe se o Orlando Martello trabalha nesse prédio? E o Januário Paludo? Não conhece ou não trabalha? Não entendi. Diogo Castor? Como que eu posso encontrar ele?
[Natália Viana]
A recepcionista tenta entrar em contato com a assessora de comunicação do MPF em Curitiba, Amanda e Stela sabiam que a assessora estava no prédio, mas ainda assim não tiveram resposta.
[Amanda Audi]
É que eu falei pra ela que a gente vinha pra cá… Vamos esperar um pouquinho? Ver se ela responde aqui. A gente vai sentar ali, tá?
Efeito sonoro: passagem de tempo
[Natália Viana]
A pessoa responsável pela comunicação do MPF em Curitiba não atendeu de imediato, porque estava em reunião, mas, finalmente, quando respondeu, disse que não podia fazer muito.
[Amanda Audi]
É como eu estava te falando, não é nenhuma novidade. Eu estou pedindo isso já faz semanas. É porque eu estou em Curitiba hoje, por isso seria importante falar com qualquer pessoa que seja. É por isso que eu estou pedindo essa celeridade para pelo menos não sair daqui de mãos abanando, até porque eu acho que é do interesse de vocês falar também sobre isso. Não é nenhuma pergunta ruim para o Ministério Público. É bom. É para explicar uma questão que faz parte da operação. Não tem segredo nenhum. Mas, enfim…
[Natália Viana]
Mas você pode imaginar qual foi a resposta final, né? Negativa. Ninguém do Ministério Público, ainda atuante em Curitiba, estava disposto a falar sobre o assunto. Mas ainda existe uma última possibilidade.
[Stela Diogo]
Onde estamos? Onde chegamos, né, na verdade?
[Amanda Audi]
Chegamos na Polícia Federal de Curitiba, que fica no bairro Santa Cândida. E como é distante, assim, e é um pouco mais tranquilo, de trânsito e tudo mais, aqui ficava o acampamento dos apoiadores do Lula. Eles ficavam nessa ruazinha aqui, na ruazinha ali de baixo. E tinha alguns momentos, assim, todos os dias de manhã eles falavam lá o “bom dia, presidente”. Daí de noite tinha o “boa noite, presidente”, também e tal. Porque ele ficava numa cela aqui, que ficava ali nos fundos, assim, mais ou menos, desse prédio que a gente está vendo da PF aqui. Ele ficou um bom tempo nessa salinha, assim. Então, se o povo gritava muito alto, ele conseguia ouvir (risos).
[Natália Viana]
Desde a reeleição de Dilma em 2014 o Brasil estava dividido, e durante a Lava Jato a polarização se intensificou ainda mais. Era como se Curitiba fosse um microcosmo do que era o Brasil. Os apoiadores de Moro ficavam na frente do prédio da Justiça Federal, e os apoiadores de Lula se concentravam na pracinha diante da Superintendência da Polícia Federal, onde ele ficou preso por um ano e sete meses.
[Amanda Audi]
E daí, do meu lado, quando eu era jornalista aqui… Vinha pra cá toda vez que tinha operação… Operação da… Da Lava Jato com… Principalmente com presos, assim, para ver se falava com advogados. Se tirava… Conseguia tirar alguma foto da pessoa chegando. Mas eu lembro que quando a gente ficava o dia inteiro esperando. E às vezes acontecia, assim, de ficar horas e horas aqui no sol, assim. Na chuva, no frio. A gente andava um monte ali pra baixo. Até encontrar um lugar que vendia um PF pra poder ficar o resto do tempo aqui na PF (risos).
[Natália Viana]
Se a vida dos investigadores não têm o glamour dos filmes americanos, a das jornalistas muito menos. Durante a Lava Jato, o jeito era fazer plantão na porta da delegacia, embaixo de sol e chuva, agora a dificuldade é conseguir alguma autoridade disposta a dar uma entrevista.
[Amanda Audi]
Você sabe me informar, por favor, se o Igor Romário de Paula tá no prédio aqui hoje? A gente é jornalista. Queria ver se ele pode dar uma palavrinha com a gente. É sobre Lava Jato.
Trilha sonora clima de suspense
[Natália Viana]
O clima na recepção da Polícia Federal parece bem mais favorável…
[Amanda Audi]
Ai seria muito bom se ele atendesse a gente.
[Stela Diogo]
Você acha que vai?
[Amanda Audi]
Tomara. Eu achei que, pelo menos, elas não negaram logo de cara, que eu esperava que fosse acontecer.
[Natália Viana]
Minutos depois, a assessora de imprensa da PF vai até à recepção e avisa que o delegado está em diligência e sugere que Amanda envie outro e-mail, porque eles responderiam por escrito. Mas desde o início dessa investigação, já encaminhamos várias solicitações de informação para a PF sem obter nenhuma resposta. Basicamente, fomos enroladas, mais uma vez.
[Amanda Audi]
A gente está colecionando ghostings (risos).
Efeito sonoro: silêncio
[Natália Viana]
Após vários vácuos seguidos ficou evidente que existe um freio institucional barrando a relação de autoridades com a imprensa quando o assunto é Lava Jato. Um contraste gritante com o auge da operação, quando procuradores e delegados davam entrevistas a rodo e as informações chegavam facilmente por vias oficiais e extra oficiais aos jornalistas. Eram famosos os vazamentos de informações partindo da própria Lava Jato. Dá pra entender que estamos vivendo uma ressaca pós investigação, mas não vamos conseguir chegar à verdade sem saber como pensam aqueles que foram protagonistas dessa história – os procuradores.
Trilha sonora
Enquanto buscamos alguma voz de dentro do MPF, eu continuei pesquisando para entender como os EUA podem processar e multar empresas estrangeiras por atos de corrupção. Um dos especialistas que se debruçou sobre o tema mora bem longe de Curitiba, em Paris. É o cientista político Gaspard Estrada, que escreveu uma longa reportagem no jornal Le Monde sobre as relações internacionais da Lava Jato. Ele é francês, mas fala português fluente com um leve sotaque que você vai perceber durante a nossa entrevista.
[Ricardo Terto]
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[Entrevista Gaspard Estrada]
Eu sou Gaspard Estrada, sou cientista político, especializado na América Latina, trabalho, pesquiso, principalmente, eu faço pesquisa sobre campanhas eleitorais na América Latina, comunicação política. E, como vocês sabem, as campanhas eleitorais na América Latina, há muito tempo, né? Mas desde que apareceu a Operação Lava Jato, foram muito associadas a escândalos de corrupção, caixa 2, não é uma coisa nova, né? Ou seja, esse assunto… E também não é uma exclusividade da América Latina.
[Natália Viana]
E ele conta que não apenas o caixa 2, mas a propina era normalizada na França até recentemente.
[Entrevista Gaspard Estrada]
Até o ano 2000, quando uma empresa francesa dava propina para um governo particular no exterior, particular, não governo, particular, a empresa podia descontar essa propina dos seus impostos na França, tá? Então, é uma coisa até que era normal, tá?
[Natália Viana]
Isso mesmo, até os anos 2000, propinas pagas por empresas francesas no exterior poderiam ser descontadas no imposto de renda. É óbvio, mas não custa dizer, corrupção não tem nacionalidade. Para entender como a corrupção internacional entrou na agenda geopolítica, chegando até a Lava Jato, Gaspard fez uma cuidadosa pesquisa:
[Entrevista Gaspard Estrada]
O objetivo da matéria é explicar como que a gente chegou até 2014. Por isso que a matéria começa em 2003. Porque quando se cria a ENCCLA, que é a Estratégia Nacional de Combate à Corrupção à Lavagem de Dinheiro, que é quando o modus operandi da operação quer compartilhar de maneira informal, portanto, ilegal, informações entre vários órgãos do governo, que é a Receita, que é a COAF, que é o Ministério Público, todo esse esqueminha aí começa lá em 2003, só que com totalmente outra ideia, né? Não é ir atrás de gente com objetivos políticos, era um objetivo muito positivo, naquele momento que era, de fato, lutar contra a lavagem de dinheiro.
Trilha sonora “leve”, momento explicativo
[Natália Viana]
Para que a Lava Jato existisse foi preciso que um conjunto de leis viesse primeiro. O Brasil desde 2003 promoveu mudanças institucionais e legislativas para facilitar a investigação de crime organizado e lavagem de dinheiro. Mas tudo isso também é consequência de um debate maior, porque os EUA passaram a empurrar a agenda anticorrupção globalmente com uma variedade de leis, em especial a FCPA, Foreign Corrupt Practices Act ou FCPA em inglês.
Fim da trilha
Eu vou fazer uma pergunta bem básica. O que é FCPA?
[Entrevista Gaspard Estrada]
Olha, o FCPA, ela é uma lei que foi votada nos anos 70, né, no começo, ela tinha como objetivo punir empresas americanas que fizessem atos de corrupção sobre agentes públicos. O que aconteceu é que nos anos 90, após a queda do Muro de Berlim, há uma nova realidade geopolítica internacional. E aí, basicamente, o que a administração democrata faz é mudar o objetivo da FCPA. Em vez de você realmente punir as empresas americanas por fazer atos de corrupção, aí vira uma arma de política externa. É mais punir as empresas estrangeiras por atos de corrupção que usem qualquer tipo de relacionamento com os Estados Unidos, seja um e-mail da Google, quer dizer que o servidor esteja nos Estados Unidos, que seja usar o dólar como um instrumento de transação, qualquer coisa que esteja vinculada aos Estados Unidos, dá uma jurisdição para os Estados Unidos punir empresas, seja na Indonésia ou no Brasil, onde for, quer dizer isso dá um caráter extraterritorial a uma lei de direito americano.
[Natália Viana]
Ou seja: existe uma lei americana que permite que qualquer empresa estrangeira seja investigada nos EUA por atos de corrupção, basta que uma transação seja feita em dólar, ou que parte do dinheiro tenha passado por uma conta americana. Isso permitiu que, na prática, os EUA tenham jurisdição mundial para aplicação dessa lei.
[Entrevista Gaspard Estrada]
Então a ideia da FCPA é que todo mundo esteja em igualdade. Esse é o discurso do Departamento da Justiça, tem discursos de várias autoridades sobre isso, agora eu acho que é um discurso muito, por um lado, que, de fato reconhece que a Justiça está sendo usada para fins de política externa, porque na verdade é um argumento geopolítico que não tem nada a ver com processos judiciais. E por outro lado, é também uma maneira de querer mostrar que o Judiciário, de novo, como que os Estados Unidos têm que pautar o mundo.
[Natália Viana]
É claro que nem todos os países aceitaram participar desse esforço anticorrupção, e eventualmente cair nas garras da FCPA, mas no caso brasileiro houve uma convergência de interesses. Vamos lembrar, estávamos vivendo a época pós escândalo do mensalão e, em 2013, manifestações populares começaram a abraçar a pauta contra corrupção. Nesse clima que Dilma aprovou em 2013, a Lei Anticorrupção e também a Lei de Organizações Criminosas, que potencializou a delação premiada que seria central para que a Lava Jato fosse deflagrada com força total menos de um ano depois.
[Entrevista Gaspard Estrada]
Isso também acho que é uma coisa que às vezes a gente meio que esquece, mas o governo da Dilma de 2011 até 2012, 2013, ela queria fazer uma imagem própria sobre a corrupção. Tinha alguns dispositivos que eram muito perigosos, Não tanto pela ideia de aprimorar a luta contra a corrupção, mas porque o Judiciário brasileiro é influenciável na política. Então, você misturar esse tipo de leis com o Judiciário, com esse funcionamento institucional, isso pode dar problema, né?
[Natália Viana]
Para o Gaspard Estrada, isso não significa que o governo americano tenha sentado em uma mesa e decidido ferrar as empresas brasileiras.
[Entrevista Gaspard Estrada]
Algumas pessoas que eu entrevistei, mas que pediram para ficar não citar a fonte do governo americano. que me falaram “olha nessa ideia de leveling o playing field”, que essa ideia de equilibrar as regras do jogo para evitar que as empresas americanas não estejam em desvantagem com relação a outras empresas. É por causa de atos de corrupção, é nessa, é a partir disso, desse argumento, que o DOJ, para equilibrar o jogo, usa esse argumento, usa essa arma para, em base a delações, atacar empresas brasileiras, inclusive ameaçá-las de falência.
Houve uma ameaça do DOJ sobre a Odebrecht, que se a Odebrecht não entregasse os nomes, não assinasse a delação premiada, aí a filial americana, ou seja, todas, na verdade, todas as subsidiárias da Odebrecht seriam banidas do sistema americano de pagamentos. Então, seria basicamente levar ela à falência. Portanto, aí é um mecanismo muito claro de pressão e de coação.
[Natália Viana]
Seguindo a lógica de Gaspard Estrada, então todo esse esforço americano teria mesmo dado certo. A Odebrecht, em conjunto com sua subsidiária Braskem, levou a maior multa até hoje via FCPA: 3,5 bilhões de dólares. E a guerra comercial não era assim um segredo, como disse o próprio ex-procurador da República, Rodrigo Janot, em outro trecho de sua biografia:
Efeito sonoro: alerta para a leitura
“Obviamente, os americanos não queriam o êxito da Lava Jato porque eram bonzinhos, mas porque tinham interesse em abrir o mercado da América Latina para suas empresas. Para que eles pudessem competir aqui, seria necessário diminuir o nível de corrupção e de cartelização do mercado de obras públicas. Em várias conversas informais com autoridades americanas, eu sempre ouvia a seguinte pergunta: “Por que a Odebrecht pode construir o aeroporto de Miami e a gente não pode construir um aeroporto ou uma estrada no Brasil?”
Efeito sonoro: página virando
[Natália Viana]
Então, não é mera teoria conspiratória dizer que a Odebrecht seria um alvo interessante dentro dessa lógica de guerra comercial. Para tentar confirmar essas suspeitas e finalmente ter uma voz de dentro do MPF, foi a minha vez de pegar a estrada.
Efeito sonoro: ambiência de aeroporto
Estou entrando em um avião para Brasília para encontrar um procurador que foi fundamental durante a Lava Jato e também apareceu muito nos áudios vazados.
Fim da ambiência
Como sempre, para tentar “cavar” uma fonte em Brasília, o primeiro passo é tomar um cafezinho…
Ambiência de cafeteria
[Atendente]
Oi, querida, descobri/desculpe ô.
[Natália Viana]
Vou querer essa prensa francesa, pode ser com leite?
O primeiro papo rendeu bem, fiquei sabendo de muita coisa interessante sobre a cooperação internacional. Houve, por exemplo, pressão vinda direto da embaixada americana para que a Lava Jato investigasse agentes do governo venezuelano de Hugo Chávez envolvidos em propinas com a Odebrecht. Como o Ministério Público venezuelano é controlado pelo governo autoritário, os gringos queriam que nosso MPF fizesse esse trabalho…
Efeito sonoro: interferência
Ou seja, minha fonte falou, que na cooperação internacional os interesses geopolíticos se alinham à luta contra a corrupção. Agora, eu posso falar o milagre, mas não o nome do santo. Porque depois de mais de um mês e muitas idas e vindas – chegamos até a marcar uma data, a fonte pediu desculpas, mas decidiu não gravar uma entrevista.
Efeito sonoro
Voltei para São Paulo frustrada, mas com mais evidências de que por trás da tal lei que permite aos EUA investigar e punir empresas estrangeiras por atos de corrupção podem existir interesses econômicos e políticos. Além do francês Gaspard Estrada, o tema também chamou atenção de muitos acadêmicos aqui no Brasil. Foi assim que me deparei com uma joia, um estudo feito por duas pesquisadoras. Duas Marias, Maria Paula Bertran, professora de Direito da USP, especialista em direito empresarial e Maria Virgínia Mesquita Nasser, acadêmica e advogada atuante na área de infraestrutura.
[Maria Virgínia]
E daí escrevemos esse paper, que chegou até você.
[Maria Paula]
Acho que a nossa boa mistura veio da capacidade da Virginia ver o que acontecia e do universo fundamentalmente acadêmico de quem eu vinha. E aí formamos uma boa dupla.
[Natália Viana]
O que mais me interessou no trabalho dessa dupla é que ele é recheado de dados. Elas analisaram os números, as multas, e quais são as empresas penalizadas desde o início da aplicação da FCPA.
[Maria Paula]
Em relação ao volume, eu te trago um dado muito interessante do… Corporate Prosecution Registry, dos autores Garrett e Ashley, que mostram como as multas para empresas de países estrangeiros correspondem a cerca de 60% de todos os recursos, ao passo que o número de casos é 15%.
[Natália Viana]
Ou seja, as multas são muito maiores para empresas estrangeiras.
[Maria Paula]
Uma outra estatística sugere que essa magnitude é de 7 para 28. Então, enquanto para americana é 7 para estrangeiras é 28.
[Natália Viana]
É uma análise simples, numérica, mas profundamente reveladora. Mas vocês também argumentam uma coisa que eu achei super interessante, que assim, a Petrobras era o exemplo de empresa que entraria na mira da FCPA. Por quê?
[Maria Virginia]
Gás e petróleo, setor muito estratégico, grande, tinha acabado de descobrir o pré-sal, em franca expansão, com a possibilidade de desenvolver o setor a jusante e a montante, teve Sete Brasil, a contratação de sondas, todas as grandes construtoras, cada uma estava num consórcio de construção de sonda, trazendo tecnologia de fora, era uma empresa que tava lá crescendo, robustecendo, num país que estava virando uma potência regional, exportando construção pesada para países da África.
[Natália Viana]
Segundo demonstram os dados, essa era a combinação perfeita de fatores, porque as duas empresas brasileiras investigadas e multadas pelos EUA tinham influência regional, ou seja, sua penalização poderia ter impacto para além do Brasil. Agora, elas chamaram atenção para um ponto importante: enquanto por aqui o financiamento de campanha eleitoral por empresas privadas é considerado corrupção, nos EUA não é bem assim.
[Maria Virginia]
O FCPA, ele criminaliza a corrupção de funcionários públicos e estrangeiros. Mas, nos Estados Unidos, você tem leis eleitorais específicas que variam, inclusive, de estado para estado, dizendo se você pode ou não pode fazer doações eleitorais, os valores, em que contexto, em que contexto é corrupção e em que contexto não é. E tem uma decisão da Suprema Corte que, inclusive, escancara a possibilidade de doação eleitoral por empresa, que não é uma doação eleitoral, é uma doação para o Comitê de Ação Política. Quando a gente lê as delações e os depoimentos colhidos no âmbito da Operação Lava Jato, tem muita coisa ali que você lê e fala, isso não é nada diferente ou isso é muito igual a uma doação Super PAC.
[Natália Viana]
Entenderam o tamanho da contradição? A FCPA pode penalizar empresas estrangeiras por fazerem aquilo que no próprio Estados Unidos é considerado legal.
Efeito sonoro: pausa
Depois de todo esse juridiquês deu pra entender um pouco mais os interesses em jogo. Também ouvimos no episódio anterior como os procuradores brasileiros admitiam nas mensagens obtidas pela Vaza Jato que ameaçar delatores com “investigações em curso nos Estados Unidos” poderia ser uma estratégia de pressão. Além disso, a simultaneidade da investigação no Brasil e nos Estados Unidos, reforçava a importância da Lava Jato.
Trilha sonora clima de suspense
O medo de retaliações dentro do MPF, onde muitos procuradores e procuradoras estão sendo investigados por condutas consideradas abusivas durante a Lava Jato, é grande. Quando desistiu de dar entrevista, a fonte com quem conversei em Brasília me falou que: “quem bota a cabeça pra fora da areia, a cabeça vira prego”. Pois é, muita gente está com medo de virar prego. Mas isso nunca foi impedimento para o jornalismo investigativo: sempre tem alguém disposto a falar. Finalmente, depois de viajar mais de 400 quilômetros até o Sul do país, Amanda encontrou essa pessoa aqui do lado:
Efeito sonoro: transição
[Amanda Audi]
Então a gente está na sala da doutora Janice Ascari, aqui no Ministério Público Federal, em São Paulo, é no 14º andar, sala 143?
[Janice Ascari]
143.
[Amanda Audi]
Apesar de estar num andar alto, ainda tem o barulho da rua aqui em São Paulo, não tem jeito, né?
[Janice Ascari]
Não tem jeito. Agora há pouco estavam vendendo pamonha aí. [25:29]
[Amanda Audi]
Chega até aqui.
[Janice Ascari]
É, chega aqui, eu ouvi.
[Natália Viana]
Janice Ascari é procuradora do Ministério Público Federal e chegou a coordenar a Força Tarefa da Lava Jato em São Paulo. Antes disso, foi assessora do então procurador geral da República, Rodrigo Janot. A viagem de Amanda a Curitiba e nossas frustradas tentativas de conversar com procuradores demonstram que hoje o clima é de cautela.
[Janice Ascari]
Não, é porque foi o seguinte. Os que eram mesmo da Força-Tarefa de Curitiba, o rebote foi tanto, foi tanto, que eles preferem não passar por isso. Entendeu? Os procuradores da equipe. Porque foi assim um rebote muito grande, assim, para todos, para todos. E nós não podemos ter esse receio de trabalhar. Nós temos que fazer o nosso trabalho.
Trilha sonora momento “explicação”
[Natália Viana]
Dez anos depois do início da Lava Jato, a operação é alvo de uma série de procedimentos investigativos internos. O ex-juiz Sergio Moro, hoje senador, responde a inquérito autorizado pelo STF sobre a condução de delações. O Conselho Nacional do Ministério Público e o Conselho Nacional de Justiça também investigam outros envolvidos por faltas disciplinares ou interferência na condução do processo. Dallagnol, ex-chefe da Força Tarefa de Curitiba, teve seu mandato de deputado federal cassado pelo TSE por responder a 15 processos disciplinares. O ex procurador fala que o momento é de vingança.
[arquivo – Deltan Dallagnol no Roda Viva]
O sistema quer vingança, o sistema no Brasil ele não se contentou com impunidade. Você teve um imenso caso de corrupção, atores que investigaram e aplicaram a lei e o que esse sistema fez em seguida? Os atores da lei, os donos da lei, porque no Brasil nós temos donos do poder, o que eles fizeram? Eles mudaram a lei e as regras do jogo.
[Natália Viana]
Voltando à entrevista, a Amanda foi direto ao ponto: o que a Janice sabe sobre a cooperação com os americanos?
[Janice Ascari]
Entrevista. Janice Ascari [07:00] (…) Na questão dos Estados Unidos aqui. Eu sei que é uma coisa meio grandiosa. É que eu não tenho informação. Realmente, [07:16] eu sei que houve uma cooperação internacional, mas com a participação da própria Procuradoria-Geral da República, que nós temos uma Secretaria de Cooperação Internacional, [07:28] e com o DRCI, que é o Departamento de Recuperação de Ativos do Ministério da Justiça.
Então, eu sei que houve várias cooperações e tal, mas, assim, dessa época da Lava Jato, eu– nós aqui na Lava Jato usamos a cooperação internacional, mas agora no finalzinho, no caso do José Serra. E solicitamos as informações, as informações vieram, tudo certo, tudo ok, né? E é a parte que eu acompanhei de perto. Mas essa parte deles com os Estados Unidos, inclusive com outros países, aí eu realmente não tenho informação segura para dar porque não participei disso.
[Natália Viana]
O fato é que os casos que passaram por Janice não exigiram tanta troca entre países, mas como uma procuradora experiente ela talvez tenha algo a dizer sobre um possível envolvimento de agências americanas no embrião da Operação Lava Jato.
[Amanda Audi]
A gente pegou uma linha ali que a gente está tentando investigar e tal, que é assim, o Youssef e os outros doleiros, a Nelma também, a Chater, enfim, eles operavam também numa região meio de fronteira.
[Janice Ascari]
Na Tríplice Fronteira.
[Amanda Audi]
E que talvez por isso, agentes dos Estados Unidos, do FBI, da CIA, talvez tinham conhecimento dessas operações e por isso estavam colaborando ativamente com os procuradores aqui. Queria ver se a senhora ouviu falar sobre isso, se enfim, tem algo nesse sentido.
[Janice Ascari]
Olha, agentes de inteligência tem em qualquer lugar. Tem em qualquer lugar. E essa mesma cooperação internacional que é interesse de vocês jornalistas, do Ministério Público Federal com seus congêneres nos Estados Unidos, em outros países, tem na polícia também. Então a polícia tem uma rede de informações e de uma maneira muito mais– menos burocrática do que a nossa. Porque a nossa, nós precisamos abrir um processo, o processo é numerado, a gente tem que fazer referência. Não, a polícia passa a mão no telefone e liga para o delegado do outro país e eles passam informações de inteligência. Então, quer dizer, isso não é novidade.
[Natália Viana]
O que ela explicou é que policiais compartilham e recebem informações de policiais de outros países, incluindo os Estados Unidos, e também de países vizinhos, como Argentina e Paraguai, nossa conhecida “intel”, lembra? Mas essa troca banal de informações pode em certa medida influenciar e direcionar as investigações que ocorrem aqui no Brasil?
[Janice Ascari]
E é bom que isso fique claro, não teria o poder, e isso eu falo, assim, com o meu, vamos usar uma expressão da moda, do meu lugar de fala de 32 anos de Ministério Público, jamais o nosso trabalho seria pautado por uma agência internacional.
[Amanda Audi]
Boa, pode explicar um pouquinho melhor por quê?
[Janice Ascari]
Nós vamos utilizar a informação de acordo com a nossa independência funcional que é garantida pela Constituição Federal. Então, por isso que eu falo que não teria, assim, esse poder coercitivo que muitas vezes a imprensa acha que essas agências têm.
[Natália Viana]
Janice fala com uma grande convicção e com a experiência de quem trabalha há 3 décadas no Ministério Público. Será possível que toda essa história de “manipulação”, de que os agentes americanos estavam por trás da Lava Jato, seja mesmo só teoria da conspiração?
[Amanda Audi]
E se não for coercitivo, mas, por exemplo, os agentes ficam sabendo de algo que está acontecendo ali e eles, sei lá, informam isso para vocês. Isso pode acontecer?
[Janice Ascari]
Isso acontece todos os dias, então eles informam, na verdade, não para o Ministério Público, eles informam na verdade em primeiro plano para a polícia e a polícia nos informa. Porque eles estão em contato com os órgãos policiais. E aí eu vou compartilhar com a equipe de investigação que pode envolver a Polícia Federal ou não. A realidade aqui, o cotidiano, é esse.
[Amanda Audi]
Então, nesse caso, se isso tivesse acontecido, que a gente, enfim, não tem certeza, mas se por acaso agentes de fora viram uma atividade ilegal na fronteira, que estava acontecendo com agentes brasileiros, com esses doleiros, enfim, eles poderiam ter avisado a polícia, no caso, sobre isso, e daí se iniciaria uma investigação a partir desse toque, sei lá, entre aspas, dessa dica que eles deram.
[Janice Ascari]
Sim, eventualmente sim. Eventualmente sim. Porque, normalmente, o que acontece? Essas informações chegam para a polícia e a polícia instala um inquérito. E o inquérito tem que, necessariamente, passar pelo Ministério Público. Tanto federal quanto estadual, cada um na sua esfera. E, assim, o arroz com feijão nosso é esse.
[Natália Viana]
Estamos cada vez mais entendendo o arroz com feijão dos procuradores e policiais, mas ainda assim estamos longe de ter alguma evidência de que os Estados Unidos estão por trás da Lava Jato. Por isso apelamos para um recurso muito utilizado por jornalistas, a Lei de Acesso à Informação, a LAI.
Trilha sonora momento “explicação”
A LAI garante que você ou qualquer cidadão possa solicitar informações públicas de órgãos governamentais. O objetivo é promover a transparência e o controle social das atividades exercidas pelo governo com dinheiro público. As únicas coisas que não podemos perguntar são informações sigilosas, que envolvam a segurança nacional ou dados pessoais. Para você entender melhor, o pedido de informação é feito no site de cada órgão público, em um formulário, onde escrevemos nossa pergunta sobre o que queremos saber. Não é nada complicado. Mas quanto mais específico, melhor. Por exemplo: com as datas das visitas de delegações americanas em mãos, pedimos para o Ministério da Justiça e o MPF todos os registros de reuniões entre americanos e autoridades brasileiras… Além disso, fizemos uma batelada de pedidos, mais de 50 para diferentes órgãos públicos.
Fim da trilha
[Amanda Audi]
Eu fiz 15 pedidos de informação, nenhum deles teve uma resposta satisfatória. Eu fiz para o MPF e para PF, focando nos dados de viagens ao exterior e de agentes de fora para cá, em reuniões, encontros, qualquer tipo de encontro que houve entre esses agentes públicos daqui com os de fora. A resposta de todos eles é muito parecida, na verdade. O MPF diz que não tem um sistema que centralize informações, então depende de cada agente passar essa informação.
[Natália Viana]
É direito de todo cidadão ter acesso à informação, mas isso não significa que eles vão te responder. Às vezes nem o órgão público tem a resposta, outras vezes eles te enrolam mesmo. A Amanda disparou pedidos de informação sobre viagens oficiais aos EUA de procuradores cujos nomes ficaram famosos na época, como Dallagnol, Paulo Galvão, Marcelo Miller, Orlando Martello. Para nossa surpresa alguém respondeu. Agora, você conseguiu uma resposta do Orlando Martello via LAI?
[Amanda Audi]
O que é bem curioso, né? Eles falaram que não têm essa obrigação de responder, mas ele quis responder. E daí a resposta que eu tive foi essa aqui.
Trilha sonora “leve”
Este membro não manteve qualquer registro ou informações das viagens oficiais realizadas, de modo que a interessada deve eventualmente dirigir-se à administração do MPF para obtê-la. A título de colaboração, no entanto, esclarece-se que esse signatário, talvez no ano de 2016, sem certeza, entre parênteses, para reunião apenas com procuradores do Departamento de Justiça americano, não tendo tido contato com qualquer agente do FBI ou da CIA. Esclarece-se ainda que este membro não conhece, nunca manteve contato ou tratativa de qualquer natureza, formal ou informal, com qualquer membro de inteligência de país estrangeiro, mas apenas com procuradores e policiais federais em razão dos pedidos de cooperação executados na forma da legislação. Essa foi a resposta.
[Natália Viana]
Se Orlando Martello não se relacionou com ninguém do FBI, o fato é que agentes vieram para o Brasil, e mais vezes do que a gente imaginava. E eu descobri isso a partir de mais um documento inédito que chegou às minhas mãos através de uma fonte.
Efeito sonoro: alerta recebimento de mensagem
Eu recebi de uma fonte uma lista bem extensiva proveniente da Embaixada brasileira em Washington de todos os vistos que foram dados para americanos que vieram para o Brasil a pedido do governo americano. Então, ali tem os nomes de 2015 a 2017. Então, ali tem os nomes de agentes da FBI, tem nomes de gente da CIA, têm nomes de procuradores que vieram para fazer investigação, tem nomes de procuradores que vieram em Curitiba, tem nome de agente da DEA, tem nome de gente que veio fazer reunião com militar. É um monte de coisa, é uma emaranhada enorme. Mas o mais interessante é que tem algumas coisas novas ali.
A primeira coisa é que tem nomes de procuradores além daqueles que saíram na reportagem. Então, na nossa reportagem a gente disse que vieram 17 procuradores, mas tem pelo menos mais dois que vieram e que a descrição do pedido de visto deles é que iriam para Curitiba naquela mesma época, em 2015. Então, na verdade, já temos nomes novos de gente que participou dessa operação em Curitiba. Além disso, tem uma entrada da nossa querida… Tem uma entrada da Leslie Backschies, né? Da agente do FBI em 2017, em julho de 2017. E aí ela vem, e ela vem para a embaixada americana em Brasília e depois, numa época bem específica, e junto com ela vêm vários outros agentes do FBI. Para uma… Para uma reunião me parece muito específica, só que como a Leslie, esse tempo todo ela trabalhou na Lava Jato, eu acredito que essa reunião aí, em julho de 2017, deve ter sido também para coordenar ações da Lava Jato.
Trilha sonora com bipes
Leslie Backschies. Ela foi fundamental na condução das investigações das empresas brasileiras e saiu do caso com a moral lá em cima. Como eu sei disso? Um repórter da Pública flagrou o ex-chefe dela em um evento lá em Nova York, em 2018, dizendo que ela fez “um trabalho tremendo” e “crítico para o FBI”. Mas eu descobri que ela vinha ao Brasil pelo menos desde 2012… além de ter sido parte daquela comitiva com 17 americanos que visitou Curitiba. O novo documento que chegou às minhas mãos revela que Leslie veio ao Brasil também em 2016, numa viagem até agora nunca relatada pela imprensa. O que ela fazia aqui? Só existe uma maneira de encontrar essa resposta…
Ambiência aeroporto + chamada para voo com destino a Nova York
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