O Instituto LACLIMA lançou nesta quinta-feira (28) o relatório inédito "Um olhar para os compromissos climáticos", que analisa as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) dos países do G20 com foco nas metas para 2035 e em suas condições de implementação.
Por reunir as maiores economias e a maior parte das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE), o G20 ocupa posição central no futuro do Acordo de Paris. O novo relatório da LACLIMA examina esse cenário no contexto posterior ao primeiro Balanço Global (Global Stocktake, GST) e mostra que, embora tenha havido avanço na qualidade técnica e institucional das NDCs, ainda persistem diferenças metodológicas relevantes que dificultam a comparabilidade entre os países e limitam a leitura agregada da ambição climática do grupo.
O estudo identifica maior presença de metas absolutas de emissões e redução do uso de abordagens baseadas em cenários de Business as Usual (BAU), o que tende a fortalecer a integridade ambiental dos compromissos. Ao mesmo tempo, mostra que a transparência avançou mais rapidamente do que a comparabilidade. Diferenças de ano-base, métricas de contabilização, cobertura setorial e desenho metodológico continuam impondo obstáculos à avaliação homogênea dos compromissos assumidos.
"O relatório mostra que o G20 segue no centro da ação climática global, mas também evidencia que suas NDCs ainda não formam um conjunto plenamente comparável", afirma André Castro Santos, diretor técnico da LACLIMA. "Houve avanço na formulação das metas e no fortalecimento da transparência, mas ainda existem diferenças metodológicas que exigem cautela na leitura da ambição climática", acrescenta.
A pesquisa também destaca que a ambição climática não pode ser analisada apenas pelo volume total de redução prometido. A distribuição temporal do esforço importa. Alguns países concentram maior esforço até 2030, enquanto outros deslocam reduções mais expressivas para o período posterior. Os dados mostram que não há um padrão único de trajetória no G20 e que países com perfis de emissão semelhantes podem distribuir seus esforços de forma bastante distinta entre 2030 e 2035.
Outro ponto de destaque é a crescente adoção de metas baseadas em emissões líquidas. Embora essa abordagem reconheça o papel das remoções de carbono, o relatório alerta que emissões líquidas reduzidas não substituem a necessidade de cortes diretos nas emissões provenientes da queima de combustíveis fósseis, sobretudo quando parte da compensação depende de remoções em biomassa sujeitas a reversão.
No campo social, o documento mostra que a transição justa passou a ocupar posição mais central nas estratégias climáticas. Em parte significativa das NDCs analisadas, o tema aparece associado à inclusão, proteção social, qualificação profissional, geração de empregos e atenção territorial, o que reforça a percepção de que a viabilidade das metas depende também de sua legitimidade social e política.
"A transição de baixo carbono deixou de ser apenas uma agenda ambiental", diz André Castro Santos. "Ela envolve escolhas econômicas, distributivas e institucionais. O relatório mostra que a viabilidade das metas depende tanto do quanto os países prometem reduzir quanto da forma como pretendem implementar essa transformação", completa.
O estudo ressalta ainda que financiamento, tecnologia, fortalecimento de capacidades e instrumentos de mercado continuam sendo fatores decisivos para a implementação das NDCs. Em muitos casos, especialmente entre países em desenvolvimento, permanece uma distância importante entre a ambição declarada e a ambição efetivamente implementável.
O relatório traz também uma ressalva específica sobre os Estados Unidos. Embora a NDC do país tenha sido incluída no universo empírico analisado, sua interpretação exige cautela, já que os EUA formalizaram sua retirada do Acordo de Paris em janeiro de 2026 e deixaram de estar juridicamente vinculados às obrigações do regime. Esse contexto afeta a previsibilidade de implementação de suas metas e deve ser considerado na leitura comparativa dos dados.
Com foco em tornar mais legíveis padrões, lacunas e assimetrias entre os compromissos climáticos do G20, o relatório oferece uma base comparativa para governos, sociedade civil, academia e setor privado em um momento decisivo para a credibilidade do ciclo pós-GST.


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