As estratégias de intimidação eleitoral atingiram um novo patamar no Brasil em 2026 com o surgimento, nas redes sociais, de listas de boicotes e postagens incitando a demissão de eleitores do presidente Lula. Isso porque desta vez não se tratou, como em eleições anteriores, apenas de manifestações de insatisfação do campo bolsonarista com a derrota nas urnas, mas de influenciadores, políticos e empresários motivando seus seguidores a punir funcionários e fornecedores em função de seus votos, o que é ilegal.
Essa é a conclusão da procuradora de Geny Helena Barroso Marques, dirigente da Associação Nacional dos Procuradores e das Procuradoras do Trabalho (ANPT). “O resultado da urna não pode autorizar ninguém a transformar o emprego em instrumento de vingança política”, afirma. “O que a gente vê posteriormente à eleição são influenciadores, são membros da sociedade, insatisfeitos com o resultado da eleição que começaram a promover uma campanha de discriminação contra trabalhadores”, relata Marques.
Um exemplo é a publicação no Instagram do deputado federal reeleito Nikolas Ferreira (PL-MG) em que declarou apoio aos boicotes comerciais: “Nós [de direita] temos o direito de escolher para onde vai o nosso salário. […] Agora a gente não quer mais consumir ou fortalecer pessoas que não condizem com os nossos princípios”.
Já a presidente do diretório municipal do PL em Ananindeua (PA), Carolina Pereira Arruda da Costa, publicou um vídeo no Instagram em que orientava empregadores a dispensar funcionários por razões político-partidárias – mas sem revelar a verdadeira motivação da demissão, para esquivar-se de eventuais multas e sanções por assédio eleitoral. A Justiça do Trabalho determinou a retratação nos canais oficiais de comunicação de Costa e a remoção do vídeo.
Costa também usou as redes sociais para informar que havia suspendido iniciativas de assistência social na região, justificando a decisão pela vitória de Lula no segundo turno. Entre as ações, está um projeto natalino que realizava a distribuição de brinquedos, cestas básicas e festas para crianças de comunidades locais. Na publicação, ela ironizou a expectativa em torno do novo governo e questionou se a população vulnerável não teria deixado a pobreza após o resultado das urnas. O Ministério Público do Trabalho chegou a ajuizar uma ação contra Carolina Costa, porém, até o momento da publicação desta reportagem, as imagens seguiam disponíveis em suas redes sociais.
Para a procuradora Geny Marques é importante distinguir esse movimento envolvendo políticos de uma “simples insatisfação pós-eleição”. “Isso carrega uma discriminação da sociedade que a gente tem que barrar de pronto, […] para entender que não é um movimento simples, banal, mas sim, que pode acarretar um movimento de ódio”, salienta.
A participação de parlamentares como incentivadores do desligamento de trabalhadores em função do voto ou convicções políticas, ou de boicotes a empresas, deve provocar o Ministério Público Eleitoral e do Ministério Público Federal a adotar uma nova etapa de verificação: a etapa da insatisfação. “Dentro da democracia, cabe essa insatisfação, mas é importante respeitar e não punir um trabalhador pela sua escolha. Mostrar que o trabalhador não se despe da condição dele de cidadão quando ele está trabalhando”, compreende Marques.
Diante da ofensiva contra eleitores do campo progressista, o Ministério Público do Trabalho (MPT) registrou, em apenas quatro dias após a votação de segundo turno, 1.817 denúncias de assédio eleitoral. Em duas semanas após as eleições, o número chegou a 5.018 denúncias, 1.645 a mais do que no ano de 2022, quando o órgão recebeu 3.373 denúncias, um crescimento de 48,7%. Além dos parlamentares, os alvos das denúncias incluem empresários e influenciadores digitais acusados de promover assédio eleitoral em suas plataformas.
Boicotes remetem à Alemanha Nazista
As listas de boicotes a empresas ou lojas “dos eleitores do PT ou do presidente Lula” circularam em várias cidades por todo o país por conversas no WhatsApp, posts no X (antigo Twitter) e até em publicações no Instagram após o fim do segundo turno. Além das listagens, foi criado um site chamado “Meu dinheiro não”, com supostos apoiadores da campanha do presidente reeleito.
Sobre essa estratégia, a professora do departamento de Direito Público da Universidade Federal Fluminense (UFF), Wanise Cabral Silva, recorda que a adoção de táticas de perseguição remete ao período nazista na Alemanha pré Segunda Gerra Mundial. “Essa é uma prática que remete, infelizmente, às práticas nazistas de 1933. Quando se coloca listas para que as pessoas não tenham acesso a determinados estabelecimentos por causa de convicções políticas, ideológicas, isso é remetido à época do nazismo”, salienta.
Durante o regime nazista da Alemanha, a partir de abril de 1933, membros da Juventude Hitlerista e da milícia de Hitler espalharam por diversas cidades alemãs listas de estabelecimentos que seriam de comerciantes judeus, além de cartazes com frases como “Não comprem de judeus. Comprem em lojas alemãs!” Em outros momentos da história mundial, “listas de boicote” também foram usadas para retaliar e oprimir grupos de diferentes etnias, concepções ideológicas e políticas.
No Brasil, 93 anos depois, a história se repete. Além dos políticos, influenciadores, advogados, empresários e médicos foram denunciados pelo Ministério Público. É o caso de Marcelo Figueiredo Sostena, médico e proprietário da Visio Saúde, que teve de remover um vídeo de suas redes sociais no qual falava em “lei de consequência do voto” após determinação da Justiça do Trabalho.
Lays Jordy, advogada e esposa do senador eleito Carlos Jordy (PL-RJ), publicou um vídeo no qual defendeu a demissão de petistas. Atendendo ao pedido do MPT-RJ, a Justiça do Trabalho determinou a remoção da publicação.
Em Minas Gerais, a Justiça determinou que a influenciadora Viviani Melo excluísse nome de advogado de uma lista de boicote contra petistas, sob pena de multa diária de R$ 1 mil. No Rio Grande do Sul, o empresário Jorge de Sousa Castros Junior, sócio da Cazartelli & Castros Ltda., fez uma publicação na qual incitou a demissão por posicionamento político. Castros Júnior teve de excluir o conteúdo e publicar uma retratação em seu perfil no Instagram após determinação da Justiça do Trabalho.
A professora Wanise Silva explica que listas desse gênero não são novidades no Brasil. “Por causa disso, o código eleitoral de 1932 adotou o voto secreto para tentar coibir o chamado voto de cabresto e a dependência que esse voto tinha em relação aos trabalhadores com os coronéis”, explica a professora. Outro momento em que listas de boicote tiveram alcance no Brasil, segundo a professora, foi durante a ditadura militar. A Comissão Nacional da Verdade apontou que nomes de trabalhadores e de empresas, considerados contra o regime militar, eram reunidos para que houvesse retaliações.
Justiça determina que Meta também é responsável
A responsabilidade pelos conteúdos que promovem discriminação eleitoral vai além dos donos das postagens. A Justiça do Trabalho de São Paulo, acatando uma ação ajuizada pelo Ministério Público do Trabalho de São Paulo (MPT-SP), determinou uma proibição judicial à Meta em 29 de outubro, e estabeleceu que a empresa retirasse do ar todos os conteúdos que incentivassem empresários a vigiar, expor e punir funcionários por causa do voto. A Justiça também determinou que a empresa apagasse todas as postagens indicadas pelo MPT-SP em até 24 horas, e que publicasse, em até 72 horas, um comunicado em suas três plataformas no Brasil afirmando que a legislação brasileira proíbe a discriminação e o assédio eleitoral no ambiente laboral.
Para o MPT-SP, a Meta tem responsabilidade efetiva pela circulação de conteúdos e pode identificar e remover postagens em alta escala. O MPT também recomendou que a empresa crie uma política permanente de prevenção ao assédio eleitoral, forme diretrizes de uso para proibir expressamente conteúdos que promovam a discriminação e coação eleioral, reforce a moderação em períodos eleitorais e preste contas periodicamente à Justiça.
Questionada pela Pública sobre como se posiciona acerca da determinação da Justiça do Trabalho e quais foram os esforços para inibir postagens que influenciam o assédio eleitoral, a Meta respondeu que não iria comentar o assunto.
Tiro pode sair pela culatra
O intuito de prejudicar e intimidar os eleitores do campo adversário por meio de listagens de boicote nem sempre dá certo. Em Porto Alegre, a Quati Gelateria entrou nessa lista após o proprietário, Fernando Campello, publicar um vídeo informando que não abriria o estabelecimento no domingo do segundo turno e incentivando os seguidores a irem votar.
Embora não tenha feito declaração de voto a nenhum candidato, a menção à preservação de direitos e à ditadura militar foram suficientes para que grupos de extrema direita passassem a espalhar o nome da gelateria em correntes de boicote e a publicar avaliações negativas falsas no Google.
Segundo Campello, porém, a própria clientela e os moradores locais organizaram uma rede de apoio para enviar avaliações positivas e alavancar as vendas de um gelato criado em “celebração à democracia”.
Mesmo não sendo prejudicado pela ação política, o empresário pondera sobre o impacto dessas listas em contextos mais vulneráveis. “Em Porto Alegre as coisas reverteram positivamente, mas e no interior? Como é que ficaram as pessoas em cidades pequenas, de maioria bolsonarista, que tiveram seus nomes citados em listas?”, indaga.
Ainda na capital gaúcha, o influenciador Julio Ritta se juntou a outros empreendedores que relataram boicotes a seus negócios. Até o seu projeto social, ‘Cozinheiros do Bem’, que atua há 11 anos servindo refeições a pessoas em situação de rua na cidade, perdeu doadores e patrocínios privados após ser incluída nas listas de retaliação por motivação política.
O deputado do PL Nikolas Ferreira ironizou em suas redes, a perda de recursos pelo projeto ‘Cozinheiros do Bem’. Como resposta às provocações de Nikolas, Ritta compartilhou um novo vídeo no Instagram, com críticas ao deputado e relatando que sua iniciativa conseguiu servir comida a mais de 500 pessoas em situação de vulnerabilidade.
Para Wanise Silva, da UFF, “perseguições contra o sustento dos trabalhadores por divergência política”, como os “iniciados pela má influência do deputado Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais” devem ser punidos. Segundo Silva, eles se enquadram nos crimes de perseguição, previstos no Código Penal, no artigo 147-A, pelo crime de ameaça, previsto no artigo 147 do Código Penal e por incitação ao crime, artigo 286 do Código Penal. “E também por crimes contra a organização do trabalho previstos no artigo 197-1 e 198 do Código Penal”, completa a professora.
MPT e ações na Justiça tentam coibir discriminação política
Em 2026, até 29 de outubro, o Ministério Público do Trabalho ajuizou mais de 69 ações, teve mais de 54 termos de ajuste de conduta e expediu 1.140 recomendações contra a discriminação política. A deputada estadual Índia Armelau (PL-RJ), a mais votada pelo Rio de Janeiro nessas eleições, foi alvo de uma ação do MPT-RJ por postar em seu stories do instagram a frase: “Empresário, olha a rede social do teu funcionário aí e confere se ele fez o L. Acho que não faz sentido nenhum manter na tua empresa quem odeia empresários”.
A Justiça do Trabalho do Rio de Janeiro atendeu parcialmente ao requerimento do MPT-RJ e proibiu a deputada de incentivar demissões e perseguições a trabalhadores por convicções políticas. Foi determinado que ela deletasse a publicação da sua rede social, em 48 horas, sob pena de multa de R$ 5 mil. A ação civil pública do MPT-RJ pedia também uma multa de R$ 500 mil por dano moral coletivo à deputada, mas o pedido não foi deferido.
Questionada sobre suas suas falas, Índia Armelau disse em nota à Pública que “jamais teve qualquer preconceito contra quem quer que seja”, que sempre “conviveu com a diversidade ideológica e defende que as opções políticas dos trabalhadores sejam integralmente respeitadas”. O episódio, para ela, foi um erro de interpretação e “o comentário foi feito a partir de uma replicagem de uma postagem de terceiro de outra rede e não expressa qualquer orientação sobre contratações ou demissões.”
O deputado federal por Curitiba, Guilherme Kilter (Novo-PR), também foi alvo de uma ação do Ministério Público do Trabalho do Paraná (MPT-PR) após publicar um vídeo incentivando o movimento “demita um petista”. No vídeo publicado em suas redes sociais, Kilter diz que “a maior crise da história do Brasil está batendo na porta e os empresários precisam se planejar”. Ele também aconselha: “se você precisa fazer um corte de gastos, ou uma reestruturação da sua empresa, comece pelos petistas”.
O MPT-PR recomendou a remoção do post e a publicação de retratação nas redes sociais de Kilter na qual ele informe que os trabalhadores têm o direito de escolher livremente seus candidatos nas eleições, independentemente de partido ou orientação política. Kilter chegou a afirmar ao Jornal Tribuna do Paraná, que solicitaria ao Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) a suspensão da recomendação do MPT por não acreditar que o órgão tenha competência para “ditar o que um parlamentar pode ou não fazer no exercício de seu mandato”. A publicação, com mais de 100 mil visualizações, segue disponível no perfil oficial do deputado no Facebook.
A procuradora Geny Marques rebate o argumento do parlamentar sobre a competência do MPT e de que deputados teriam o direito de fala. Segundo a dirigente da ANPT, existe uma diferença entre a liberdade de fala dentro do plenário, em que está defendendo um projeto, e a liberdade de fala em rede social. “Ele não pode usar rede social para espalhar ódio, ele não pode usar rede social para espalhar discriminação”, pondera.
A vereadora de Belém, Patrícia Queiroz (PP-PA), também foi acionada pelo MPT no Pará e no Amapá por repostar post que tinha a mesma frase compartilhada por Armelau. Por essa razão, a Justiça do Trabalho determinou que a parlamentar fizesse uma retratação em todos os seus perfis oficiais e que se abstivesse de incitar discriminação política.
O vereador de Ijuí, município do Rio Grande do Sul, Almiro Correa Filho (PL), também foi alvo do MPT após postar vídeo incitando ao movimento “liberte um esquerdista”, onde convoca empresários e empregadores a demitirem trabalhadores eleitores de esquerda. No vídeo, ele alega que a demissão seria uma “libertação do jugo capitalista”. O vereador apagou o vídeo após notificação do MPT e publicou uma retratação oficial em seu perfil.
A procuradora Geny Marques salienta que impedir a proliferação desse conteúdo é uma forma de evitar que “o rancor deste período” não se estenda ainda mais. “A preocupação […] vai surgir quando essas posições políticas passarem a ser usadas como critério para contratação, para demissão, para acesso, para oportunidades profissionais”, afirma.
“É normal a gente ter diferenças, é normal a gente ter pensamento diferente, mas a gente tem que saber como tratar esses conflitos, porque fora do período eleitoral a gente não vai chamar mais de assédio eleitoral, mas vai acontecer assédio moral, discriminação por orientação política, e isso tudo vai gerando ambientes de trabalho nocivos e o adoecimento mental”, complementa.
Outro lado
Procurados pela Pública, as assessorias de Carolina Pereira Arruda da Costa, Almiro Correa Fortes Filho (PL), Patrícia Queiroz (PP) e Guilherme Kilter (Novo) não responderam às tentativas de contato da reportagem. O espaço segue aberto e será atualizado em caso de manifestação.
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