HomeBrasil

as digitais do FBI na Lava Jato — “Os agentes”

Natalia chega aos Estados Unidos disposta a encontrar uma personagem crucial para a investigação: a agente Leslie Rodrigues Backshies. Numa saga de telefonemas, e-mails, portas fechadas e muitos voos, nossa incansável repórter cruza o país de ponta a ponta e conversa com fontes diretamente envolvidas na relação do FBI com a polícia e a justiça brasileiras. Mas uma nova pista surge no Brasil.

Ouça agora o episódio 5!

Confidencial: as digitais do FBI na Lava Jato

1

Episódio 5: Os agentes

Confira abaixo o roteiro do episódio na íntegra

EPISÓDIO 05: OS AGENTES

[Ricardo Terto]

Você está ouvindo uma áudio série, Original Audible. Para conhecer mais histórias surpreendentes e imersivas como está, acesse o site audible.com.br. Faça sua conta e teste grátis por 30 dias ou por 3 meses, se você for membro Amazon Prime.

Efeito sonoro: ambientação aeroporto voo para NY

[Natália Viana] [Amanda Audi]

Eu tô embarcando para Nova York, onde espero conseguir ouvir outros personagens desta história – os investigadores americanos que colaboraram com a Lava Jato. Fiz contato com funcionários e ex-funcionários públicos de todo tipo: ex-procuradores do DOJ, o Departamento de Justiça americano; advogados da SEC, o Security and Exchange Commission, ou Comissão de Valores Mobiliários. Existem até nomes que desconfio que sejam da CIA. Mas quem eu realmente quero encontrar são os agentes do FBI. 

Efeito Sonoro: ligação

Hello, my name is Natalia Viana. I’m calling for Mr. Patrick Kramer.

Trilha sonora com inspiração em filmes de espionagem

Antes de embarcar, eu tentei contato com vários deles. Nomes que conhecia apenas pelos diálogos vazados, como Patrick Kramer, um superagente, ex-marine, que chegou a ser do serviço de inteligência durante a Guerra do Golfo. Steve Moore, que atuava no consulado de São Paulo, June Drake, uma jovem agente do FBI; David Williams, que também trabalhava no consulado e é muito citado pelos membros da força tarefa da Lava Jato nos diálogos vazados. Mas existe uma agente, em especial, que eu sempre sonhei em entrevistar…

Fim da trilha

Leslie Backschies, quer dizer, Leslie Rodrigues Backshies. Rodrigues com “S” mesmo. Leslie é filha de brasileiros. Eu descobri o “Rodrigues” por acaso durante as investigações, e logo me identifiquei porque também tenho o mesmo sobrenome e, como ela, também escondo esse nome na minha assinatura. Durante anos, a única imagem que consegui de Leslie foi uma foto tirada de longe. Na imagem, dá pra ver uma mulher de meia idade, blusa rosa e calça preta, usando óculos escuros que cobre boa parte do rosto, cabelo castanho preso num rabo de cavalo e um sorriso tímido. O principal motivo do meu interesse é que Leslie se tornou uma figura muito conhecida e reconhecida pelos procuradores de Curitiba. 

Efeito sonoro: vinheta de abertura

Meu nome é Natalia Viana, sou jornalista e apresentadora da série “Confidencial: as digitais do FBI na Lava Jato”. No penúltimo episódio desta série vamos investigar quem são e qual foi a atuação de agentes do FBI e procuradores americanos durante a maior operação anticorrupção da história brasileira. 

Efeito sonoro: fim da vinheta 

Episódio 05: Os agentes

Efeito sonoro: pausa

[material de arquivo]

Reinaldo Azevedo: Desde 2016 pelo menos, a Lava Jato está operando intimamente com uma senhora chamada Leslie Rodrigues, em português mesmo esse Rodrigues, ou dona Leslie, eu não sei a pronúncia do seu nome, não sei se “Backskies” ou “Backshies”, mas B a c k s c h i e s. Ela é um medalhão do FBI, íntima, o tempo todo atuando em parceria com a Lava Jato ao arrepio do governo brasileiro. 

[Natália Viana]

Neste áudio, o jornalista Reinaldo Azevedo fala de Leslie Backschies, cuja carreira demonstra a mudança de foco do FBI. Ela inicialmente trabalhou em contraterrorismo, em 2012, mudou-se para a América do Sul, supervisionando agentes do FBI em vários países, incluindo aqueles lotados na embaixada em Brasília. A foto que mencionei prova que desde essa época ela vinha ao Brasil, o objetivo era firmar parcerias para capacitação de policiais para responder a ameaças terroristas antes da Copa de 2014. Na foto, ela está em frente a um helicóptero junto com outra agente do FBI e policiais da PM de São Paulo. Foi depois disso que a carreira de Leslie deu uma boa guinada, e ela passou a investigar casos de corrupção, e assim chegamos à Lava Jato. 

Fim da Trilha sonora 

O nome da Leslie aparece muito nos diálogos da Vaza Jato. Como nesse entre o procurador Deltan Dallagnol e a ex coordenadora da Força Tarefa em São Paulo, Thaméa Danelon, que estava com viagem marcada para os EUA.

Efeito sonoro: alerta mensagem

[Ricardo Terto]

18 de maio de 2016, de Thaméa Damelon para Deltan Dallagnol: “Vou tentar tirar uma foto com  a Jennifer Lopes e o cartaz das 10 Medidas. Os agentes do FBI já apoiaram. Mas não pode publicar a foto, ok? Eles não deixaram. 

Efeito sonoro: alerta mensagem

“Ahhhh Garota! Aí é missão impossível, hein? Até ouvi a musiquinha! Legal a foto! A Leslie está em todas rs”.

[Natália Viana]

“A Leslie está em todas” é uma frase que sempre me deixou curiosa. Sobre as tais 10 Medidas, era um projeto de lei encampado pelos procuradores de Curitiba, que buscavam obter todo apoio político possível – até do FBI. A foto foi tirada em São Paulo, um dia antes da mensagem, em 17 de maio de 2016, quando Thaméa participou, junto com Leslie, de uma palestra para 90 membros do MPF paulista. O evento contou também com a presença de outros agentes ilustres, como George “Ren” McEachern, então diretor do Esquadrão de Corrupção Internacional do FBI em Washington — e chefe da Leslie. A palestra teve como objetivo ensinar o funcionamento da FCPA, acrônimo em inglês, ou FCPA em bom português que é a lei de combate à corrupção que explicamos em detalhe no episódio anterior.

Efeito sonoro: ambiência cidade de NY

E é com essas informações que eu chego em Nova York. Sei que agora Leslie trabalha na sede do FBI que fica aqui. Depois da Lava Jato, ela comandou uma das Unidades de Corrupção Internacional do FBI, em Miami, com foco em investigar casos de corrupção na América do Sul, em especial na Venezuela. É uma das quatro unidades semelhantes, todas abertas desde 2015, não por coincidência, o mesmo ano em que os EUA entraram com tudo na Lava Jato. O primeiro caminho para chegar até Leslie foi o oficial: pedi uma entrevista através da Assessoria de Imprensa do FBI. 

Agora, dizem que uma jornalista não precisa saber de nada, apenas precisa saber quem sabe. É por isso que, em Nova York, eu fui atrás de um velho conhecido, o jornalista investigativo Marco Della Stella. Ele é italiano e mora nos Estados Unidos, mas a gente sempre se fala em espanhol. 

[Ligação Natalia Viana] 

Hola Marco.  

[Ligação Marco Della Stella] 

Hola, buen día. 

[Ligação Natalia Viana] 

Gracias por hablar conmigo tempranito. 

[Natalia Viana] 

Marco conhece todos os caminhos para obter informações por aqui. 

Efeito sonoro: rebobinar

Sem muito tempo a perder, na minha curta estadia nos EUA, também pedi pro Marco levantar tudo o que conseguisse sobre a Leslie Backschies. Garimpando o nome dela na internet, cheguei a uma entrevista dada para a agência de notícias Associated Press em 2019 sobre a Lava Jato. 

“Nós vimos muita atividade na América do Sul — Odebrecht, Petrobras. A América do Sul é um lugar onde… Nós vimos corrupção. Temos tido muito trabalho ali Esses casos são muito sensíveis politicamente, não somente nos Estados Unidos mas no exterior. Nós vimos presidentes derrubados no Brasil. Se você está olhando para membros do alto escalão de governos, há muitas sensibilidades.” 

Ou seja: Leslie estava consciente dos impactos políticos de investigações anticorrupção. A reportagem afirma que havia reuniões trimestrais entre agentes do FBI e advogados do DOJ para coordenar esses casos “sensíveis”. Com essas novas informações a vontade de falar com  Leslie só crescia.

Fim da trilha sonora.

Até que o FBI cortou minhas expectativas… Dupla negativa: não tenho permissão de entrevistar a agente especial Leslie Backschies, nem de visitar o escritório do FBI em NY. Mas com a ajuda do Marco, eu consegui o telefone, o endereço e o email da agente.

Efeito sonoro: som de chamada telefônica.

[Voicemail]

Your call has been forwarded to voicemail, the person you are trying to reach is not available. At the tone, please, record your message

[Natalia Viana] 

Olá, Leslie, aqui é a Natalia Viana, sou jornalista da Agência Pública de Jornalismo Investigativo do Brasil. Estou tentando falar com você para ver se você topa conversar comigo. Eu mandei e-mail também, se você quiser entrar em contato.

Sem resposta na primeira ligação, eu segui tentando.

[Voicemail] 

When you have finished recording you may hang out. 

Efeito sonoro: ligação não atendida

[Natalia Viana] 

Decidi partir para a última cartada: bater na porta do apartamento onde ela mora em NY. Eu tô aqui em NY. É uma viagem longa. 

Trilha Sonora + Ambiência do metrô interno, aviso de porta se fechando. 

Saindo do metrô, eu caminhei algumas quadras até chegar na rua de Leslie. Estamos aqui na rua dela. É um prédio, é um prédio alto, com grandes janelas de vidro, bem moderno, tem apartamentos cujo aluguel estão no valor de mais ou menos 7 mil dólares, tem uma portaria aqui embaixo. Aqui embaixo também tem um banco, o Bank of America, um supermercado de comidas mais chiques, assim. E… Hi! Tem aqui, isso aqui é uns food trucks, uma lojinha de comida na rua, um carrinho de comida na rua. O prédio ocupa quase todo o quarteirão. 

Depois de esperar por um tempo, pedi ao porteiro para interfonar para o apartamento. Hi, hello, I’m looking for the owner of apartment B.

Ele tentou algumas vezes… e nada… No fim o porteiro aconselhou que eu ligasse diretamente para ela. Algo que como você ouviu, eu já tinha tentado algumas vezes. Dei a volta no quarteirão, esperei um pouco mais e aceitei que não foi dessa vez. Já tava voltando pro meu hotel, pensando que comecei mal a jornada aqui nos Estados Unidos, quando no coração de Manhattan, uma surpresa:

Não imaginava, mas a estação de metro dá diretamente no memorial de 11 de setembro, embora a gente esteja falando muito nessa áudiossérie sobre as consequências da guerra antiterror e da mudança do FBI depois dos atentados às Torres Gêmeas, mas eu nunca tinha visto esse memorial e ele é muito impressionante mesmo. O lugar, no perímetro onde pelo menos uma das torres existia, você tem um buraco enorme, quadrado, com uma fonte de água como se fosse uma cachoeira nos quatro lados, a água caindo e dá pra ouvir o som. 

O memorial fica pertinho da casa de Leslie, no meio do caminho pro seu trabalho, o enorme e imponente prédio do FBI em Manhattan. Imagino que esse memorial não a deixe esquecer de todas as vidas perdidas e da sua missão de combater o terrorismo internacional. Não é óbvio, mas existe uma relação entre o atentado de 11 de setembro de 2001 e as investigações anticorrupção contra empresas brasileiras realizadas pelos Estados Unidos durante a Lava Jato. Por isso, talvez a chave esteja justamente em entender como o FBI adotou o contraterrorismo como sua missão número 1. 

Trilha sonora clima interferência 

E, assim, eu cheguei no livro Inimigos: uma história do FBI, do jornalista Tim Weiner. Lendo, entendi que desde pelo menos 1935 o FBI é uma agência de inteligência e contrainteligência, com foco em caçar espiões e terroristas pelo mundo afora. Grampos ilegais, espionagem de cartas e depois e-mails, infiltrações de agentes em movimentos sociais, cooptação de informantes e agentes duplos são estratégias antigas da agência. Mas quem me contou mais sobre o trabalho do FBI foi justamente um ex-agente que estava na ativa durante o 11 de setembro.  

Fim da trilha

Na verdade, o sobrenome desse agente você conhece: Youssef. Mas esse outro Youssef, ao contrário do doleiro, atuava do outro lado do balcão. Bassem Youssef é agente especial aposentado do FBI, e foi um dos primeiros árabes a serem contratados para a área de contraterrorismo – ele nasceu no Egito. E não se trata apenas de uma coincidência estarmos atrás de dois Youssef’s: tudo, afinal, tem a ver com a mudança de foco do FBI para a luta antiterrorismo e o renovado interesse pela comunidade árabe. 

[Bassem Youssef] 

We’re starting now. Ah, okay. So, my name is Bassem Youssef. 

[Dublagem Bassem Youssef]

Ah, ok. Então, meu nome é Bassem Youssef, eu fui recrutado para o FBI em 1986. 

Quando entrei no FBI, era, você sabe, um sonho de infância sendo realizado.

[Natalia Viana]

A entrevista foi realizada em inglês, mas aqui ela foi dublada pelo ator Denis Goyos.

[Dublagem Bassem Youssef]

O processo de seleção e a verificação de antecedentes demoraram cerca de dois anos, então eu comecei na Academia do FBI em 1988. Eu trabalhei em contraterrorismo, mesmo que o contraterrorismo naquela época não fosse muito popular. O tema da Segurança Nacional não era um grande problema até o 11 de Setembro. Mas eu, em especial, fui colocado para agir em contraterrorismo islâmico radical, por causa do meu idioma, porque eu falo árabe, e essa foi uma das razões pelas quais eu fui recrutado.

[Natalia Viana]

Para encontrar Bassem, peguei um avião por três horas para Fort Myers, na Flórida, onde o encontrei em um clube de golfe luxuoso, mas bastante remoto, protegido por seguranças e arbustos altos, bem cortados. O lugar parece um daqueles em que executivos se reúnem para fechar negócios milionários, sabe? No saguão, mesas de madeira maciça, cadeiras de couro, lustres no teto, papel de parede… Tudo indica que, depois de sair do FBI, o Bassem não ficou por baixo. Ele conta que logo no começo da carreira, ainda nos anos 90, chegou a investigar nos Estados Unidos a ligação de uma rede de terrorismo que agia na Tríplice Fronteira, ou seja o interesse na região vem de décadas. 

[Dublagem Bassem Youssef]

Então, a área da Tríplice Fronteira obviamente é um ponto estratégico para o Hezbollah, em particular, a organização terrorista Hezbollah, que é um grupo xiita, patrocinado pelo Irã. Mas eles têm bases em diferentes partes do mundo. Irã, obviamente, Líbano, e partes da Síria, e até têm uma boa presença na Arábia Saudita. Mas não era apenas que eles estavam sempre envolvidos em atividades terroristas. Eles estavam de fato envolvidos no que chamamos de RICO, racketeering operation… É uma organização criminosa que envolvia várias atividades, como roubo, prostituição, drogas, jogos de azar. E, por algum motivo, eles se estabeleceram na área da tríplice fronteira. 

[Bassem Youssef] 

They settled in the triborder area. 

[Natalia Viana]

Eu quis falar com o Bassem por ele ter sido um dos primeiros agentes do FBI a fazer investigações transnacionais de terrorismo. E também porque ele conhece profundamente um dos pontos cruciais da nossa investigação: a ação dos hawalas

[Bassem Youssef] 

Hawala is an arabic word, actually.

[Dublagem Bassem Youssef]

Hawala é uma palavra árabe, na verdade significa “troca de valor”. E então as Hawalas ganharam destaque e ficaram sob uma lupa das agências de inteligência, não apenas o FBI e a CIA, mas muitas agências de inteligência em todo o mundo, porque essa era a maneira pela qual terroristas em geral, não apenas o Hezbollah, confiavam nas Hawalas para poderem ficar fora do radar dos principais bancos e instituições financeiras. E é especificamente para comércio no contexto mulçulmano.

[Bassem Youssef] 

It is specific for muslim type trade.

Trilha sonora com clima de suspense

Você  já ouviu como o termo hawala e essa tradição se conecta a importantes doleiros associados ao início da Lava Jato, como Habib Chater e Alberto Youssef, ambos de ascendência libanesa. Mas existe também outra coisa que eu queria saber de Bassem, entre os anos de 1996 a 2000, ele foi Legal Attaché – o adido legal, na embaixada em Riade na Arábia Saudita. Mas o que faz um adido legal? 

[Bassem Youssef] 

In fact, the FBI legal Attaché…

[Dublagem Bassem Youssef]

Na verdade, o adido legal do FBI é o representante do diretor do FBI em solo estrangeiro. Assim, dependendo da área de responsabilidade do adido legal, você é basicamente responsável por todos os assuntos, tanto de inteligência quanto criminais, dentro daquele país. E o importante é que o relacionamento é essencial para obter colaboração com as agências estrangeiras com as quais trabalhamos. E basicamente é uma questão de reciprocidade. Queremos compartilhar inteligência, queremos receber inteligência de vocês… Então, essa é a principal responsabilidade do escritório do adido legal: construir confiança com as outras agências.

[Bassem Youssef]

…the level of trust with the other intelligence agencies. 

[Natalia Viana]

Era justamente isso o que eu queria entender, o que faz um adido legal na prática. E conforme a resposta de Bassem Youssef,  o principal é criar relações de confiança. 

Okay. And it ends up being personal relationships. 

[Bassem Youssef]

Absolutely. Absolutely. Yeah.

[Natalia Viana]

Ou seja, essas relações de confiança facilmente se tornam relações pessoais. Eu tinha mais perguntas, queria saber como funciona a articulação entre o FBI e as outras agências que atuam na embaixada. 

[Bassem Youssef]

So at an embassy, you have

[Dublagem Bassem Youssef]

Em uma embaixada você tem uma mini administração. O embaixador representa o presidente ou a Casa Branca. E então você tem o adido legal representando o diretor do FBI. O da CIA, o diretor da CIA. E o embaixador também é o chefe do Departamento de Estado. E há muitas outras agências. 

[Natalia Viana]

Perguntei como era a coordenação entre as agências, e se existiam reuniões diárias, ou seja, a CIA sabe o que o FBI está investigando?

[Dublagem Bassem Youssef]

Há compartilhamento e cooperação dentro dessas agências. Ah, sim, quero dizer, reuniões diárias, dependendo da necessidade. 

[Bassem Youssef]

…depending on the need.

Trilha sonora clima interferência 

[Natalia Viana]

Repare que ele sempre fala que coordenar inteligência é um dos atributos do FBI. Isso significa que, embora o FBI não possa realizar investigações em solo estrangeiro, a agência comunica tudo o que possa ser de interesse americano ao seu chefe maior, o próprio presidente dos Estados Unidos. No livro Inimigos, que já citei aqui, fica claro que nessas reuniões entre agências, elas trocam informações de inteligência que podem ter motivações políticas. Por exemplo, o FBI foi utilizado na luta anticomunista durante a Guerra Fria, depois atuou espionando líderes do movimento por direitos civis, como Martin Luther King. A ação do FBI, portanto, serve a interesses políticos.

Fim da trilha

Bassem Youssef também me contou que desde 2001 há um enorme incentivo para que a CIA e o FBI troquem mais informações. Existe até um programa que leva agentes do FBI para trabalhar no escritório da CIA e vice-versa. Aliás, era lá que ele estava quando aconteceram os atentados de 11 de setembro de 2001. 

[Dublagem Bassem Youssef]

Quando o 11 de setembro aconteceu, eu estava a caminho do escritório. Ouvi sobre o ocorrido no rádio. E… E logo em seguida, dois minutos depois, meu pager começou a tocar, dizendo: “Não venha para o trabalho hoje”. Então, isso foi muito estranho. E eu me lembro, havia vários agentes, colegas meus, que também estavam alocados na CIA, ligavam e diziam que todos receberam ordens de voltar ao FBI. 

Trilha sonora clima de suspense

[Natalia Viana]

Ele não sabia, mas aí foi o começo do fim de sua carreira no FBI. Ele foi colocado na geladeira, e ficou meses sem ser convocado para uma nova missão. A discriminação era evidente, Bassem Youssef era vítima de boatos que o culpabilizavam por ter realizado bem o seu trabalho. Ele até tentou denunciar o preconceito por meio dos canais internos, não teve sucesso e acabou processando a Agência. 

O processo contra o FBI por discriminação e perseguição se arrastou ao longo 12 anos, e, durante esse tempo ele desistiu e se aposentou.  A conversa com Bassem me ajudou a entender um grande problema do FBI: em uma instituição enorme, com quase 40 mil funcionários, o maior instinto é o da autopreservação. Quem tenta reclamar, pode acabar sofrendo represálias. 

Foi refrescante ouvir a opinião sincera de alguém relevante para a luta antiterrorismo no FBI.  Para ouvir algum agente que atuou durante a Lava Jato, decidi fazer o mesmo caminho: buscar aqueles que já saíram da agência. Nessa procura escrevi para muitos ex-agentes que tinha mapeado. Depois de algum tempo, comecei a receber respostas. Steve Moore, por exemplo, foi solícito: 

Efeito sonoro: alerta de leitura de mensagem 

“Natalia, Thanks for reaching out. Natalia, obrigada por entrar em contato. Embora eu não tenha interesse em participar da série, conversei com um colega que foi o Chefe Interino da Unidade de Corrupção Internacional na Sede do FBI durante aquele período. As informações de contato dele são George “Ren” McEachern.” 

Eu já estive com o Ren durante um congresso em 2019, em um elegante hotel em São Paulo. No evento, ele me deu uma entrevista em off, mas depois não quis falar oficialmente. Ren se aposentou pouco depois de chefiar a área da FCPA, a lei anticorrupção americana, e já deu diversas entrevistas. 

Trilha sonora clima leve

Em entrevista à Folha em 2018, ele disse, abre aspas: “Curitiba mandou a mensagem de que o Brasil está ficando limpo. Combater a corrupção pode ser doloroso, mas é mais doloroso quando a corrupção persiste, cresce e nunca acaba. Há muitos exemplos no mundo. Já o Brasil parece agora ter um futuro brilhante pela frente.” Fecha aspas.

Hello Mr. George McEachern, this is Natalia Viana. I’ve reached out via email, but I’m here in the United States.

Efeito sonoro: alerta de mensagem

[Natalia Viana]

Finalmente consegui uma resposta por e-mail, mas Ren McEachern, queria ver a prova dos 9. Enviei para ele várias reportagens em inglês, incluindo uma sobre a relação do FBI com a Lava Jato, datada de 2019. Segui esperando a resposta. E nada. Então, resolvi investir tempo em outro ex-agente, Patrick Kramer, ex-marine do exército e que chegou a ser do serviço de inteligência durante a Guerra do Golfo. Hoje, ele é investigador privado. Educadamente, Patrick me respondeu por e-mail negando a entrevista.  

Alerta de leitura de mensagem 

“Good day, Ms. Viana, I appreciate your interest in reaching out to me. Agradeço seu interesse em entrar em contato comigo. Não posso falar com você sobre qualquer trabalho que eu possa ter realizado no assunto em questão.”

Não foi o fim da linha. Pois no mesmo dia recebi sinal positivo de um personagem importante em toda essa trama: o advogado Lance Jasper. Hoje ele é sócio de um escritório de advocacia em uma das avenidas mais concorridas de Los Angeles – do outro lado do país. Lição número 234 do jornalismo investigativo: se uma fonte topa falar, você tem que ir até onde ela está.   

[Ricardo Terto]

Você está ouvindo uma áudio série, Original Audible. Para conhecer mais histórias surpreendentes e imersivas como está, acesse o site audible.com.br. Faça sua conta e teste grátis por 30 dias ou por 3 meses, se você for membro Amazon Prime.

[Efeito sonoro: ambiência voo] 

It’s my pleasure to welcome you today. We have been assured of personal on-time departure of 1.55 with an estimated arrival time of 4.46 

Efeito sonoro: avião decolando 

Em Los Angeles – ou “ELAI”, como se fala por aqui – a vibe é totalmente diferente. Nada de salões escondidos por trás de muros altos. Aqui quem tem dinheiro faz questão de mostrar, ostentação é a regra. Los Angeles é uma cidade muito instagramável, corpos sarados e bronzeados caminhando pela orla durante o dia e baladas durante toda a noite.

Trilha sonora eletrônica

Isso que vocês acabaram de escutar é o som do quarto do meu hotel em Los Angeles. Cheguei num domingo no fim da tarde, a entrevista com Lance seria na segunda cedinho, mas a festa no rooftop não me deixava dormir nem trabalhar. E olha, tinha que me preparar porque essa entrevista deu trabalho. Ele já tinha sido convidado várias vezes para falar sobre a investigação da Petrobras, mas nunca tinha topado. E como bom advogado, estava preocupado em não falar nada que estivesse fora do script.

[Secretária] 

Hi, how are you? Are you here for Lance? 

[Natalia Viana]

Depois de esperar alguns minutos na sala, Lance Jasper finalmente apareceu…

[Lance Jasper] 

Hello! Hi, nice to meet you in person. 

[Natalia Viana]

Nice to meet you. 

[Lance Jasper] 

Sorry to make you wait, I was on a phone call. 

[Natalia Viana]

Don’t worry. 

Finalmente  vamos ouvir um investigador americano que de fato atuou nos casos contra empresas brasileiras. A entrevista realizada em inglês foi dublada pelo ator Aury Porto.  

[Lance Jasper]

My name is Lance Jasper.

[Dublagem Lance Jasper]

Meu nome é Lance Jasper, sou advogado em Los Angeles e conduzi a investigação da Petrobras e da Lava Jato para a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos. Atualmente, sou sócio de um escritório de advocacia internacional chamado Aiken Gump, no grupo de investigações e crimes de colarinho branco, e aconselho empresas sobre compliance e investigações de valores mobiliários, para que elas possam focar em seus negócios.

[Lance Jasper]

to focus on their business.

Trilha sonora leve, momento explicação 

[Natalia Viana]

Lance deixou a carreira pública e hoje trabalha como advogado, defendendo empresas do mesmo tipo de investigações que ele realizava anteriormente. Ele fez o que fazem muitos investigadores americanos, uma dança de cadeiras que por aqui é conhecida como revolving doors ou porta giratória. Empresas investigadas costumam contratar membros do governo que eram justamente quem as investigava. No seu currículo, ele destaca o caso da  Petrobras. Sem citar o nome da empresa: diz apenas que ajudou o governo americano a garantir uma multa recorde de uma petroleira.  

[material de arquivo]

A Petrobras decidiu pagar para não ter que enfrentar a Justiça americana, o acordo para encerrar as investigações custou R$853 milhões de dólares, o que incluindo impostos equivale a R$3,6 bilhões de reais para a empresa. 

[Natalia Viana]

Lance conseguiu esse caso de sucesso, que deu uma boa guinada na sua vida, quando trabalhava na SEC, a Securities and Exchange Commission que é a agência responsável por fiscalizar e investigar irregularidades relacionadas ao mercado financeiro. A Petrobras vende ações na bolsa de valores de Nova York e é por isso que foi investigada. Sabemos que a Petrobras foi investigada tanto pela SEC como pelo Departamento de Justiça. Então, perguntei a Lance qual era a diferença entre os dois órgãos.  

[Dublagem Lance Jasper]

A SEC e o DOJ são diferentes em alguns aspectos importantes. Um deles é que a SEC é uma agência civil, então, se algo deu errado, a SEC vai aplicar multas, ou às vezes vai expulsar alguém do setor, caso tenha feito algo errado, mas essas são sanções civis. O Departamento de Justiça é uma agência criminal. Ele acusa pessoas e empresas de crimes.

[Natalia Viana]

Mas as duas agências trabalham com aquela lei, a FCPA, a lei anticorrupção que permite que elas possam se meter a julgar e condenar casos de corrupção mundo afora. 

[Dublagem Lance Jasper]

Quanto à investigação da Petrobras, e falando apenas do ponto de vista da SEC e do que está disponível no registro público, não foi um caso típico do FCPA, porque não se tratava de alguém subornando um funcionário para conseguir um contrato ou acesso a algo. Era um esquema de apadrinhamento político, onde os benefícios para a Petrobras como empresa eram muito menos claros do que se eles estivessem tentando conseguir um contrato ou algo assim. E você pode ver pelos registros públicos da SEC, que para a SEC não era um caso de FCPA. Assim, a perspectiva da SEC era que não era aceitável vender valores mobiliários para investidores na Bolsa de Nova York e dizer que não havia corrupção com políticos brasileiros, quando havia tantas evidências de que existia.

[Natalia Viana]

Para realizar essa investigação, o Lance Jasper teve durante muito tempo contato direto com procuradores brasileiros e viajou pelo menos duas vezes ao Brasil. Ele estava presente no interrogatório de Nestor Cerveró, no Rio de Janeiro, em 2016, entrevistado no terceiro episódio dessa série. 

[Dublagem Lance Jasper] 

Eu me lembro de que foi uma época muito interessante para estar no Brasil, uma época muito intensa. Fiquei em um hotel no Rio durante uma das minhas viagens, que não era longe de Ipanema. E era bem em frente ao lugar onde estava, havia uma grande tenda olímpica que vendia produtos das Olimpíadas. E eu comprei, eu tenho uma filha mais nova com deficiência, e comprei para ela uma boneca das Paralimpíadas que ela ainda tem, achei muito fofa. 

Mas só me lembro de ser um momento muito sério para estar no Brasil e tentei ser respeitoso quanto a isso. Sabe, eu estava lá com um caso que estava investigando, era um caso grande. Mas havia muito mais acontecendo além disso. E às vezes, eu vou admitir, porque às vezes você olha para trás e é meio, é bobo vir de outro país e você não… 

Aqui está um exemplo que eu vou dar.  Eu me lembro de correr do hotel até a tenda olímpica porque estava preocupado com os mosquitos. Porque estava com medo do Zika. E só penso que, pensando agora, isso é meio bobo. Esse tipo de coisa, tipo, o americano com medo de mosquitos correndo pela praia, sabe? (risos)

[Natalia Viana]

De fato, o ano de 2016 foi intenso: tivemos Olímpiadas no Brasil, o impeachment de Dilma Rousseff e o surto do zika vírus. Olhando em retrospecto parecia o prenúncio do que estava por vir nos anos seguintes: pandemia, ameaças de golpe de Estado, Donald Trump de volta à Casa Branca. Como eu queria mais informações sobre as visitas do Lance ao Brasil, tentei quebrar um pouco mais o gelo, pegando o gancho de um comentário sobre o cafezinho brasileiro. 

You mentioned that there was always strong coffee.

[Dublagem Lance Jasper]  

Sim. Sim. Meus colegas no Brasil brincavam com o café americano. Eles o chamavam de chafé porque é fraco como chá. Então, tomei alguns cafés muito bons e muito fortes durante as entrevistas no Brasil.

[Natalia Viana]

Claro que minha intenção não era comparar o café brasileiro ao americano, eu queria saber como foram essas entrevistas feitas com os delatores brasileiros.

[Dublagem Lance Jasper] 

Não. Posso dizer muito pouco sobre as entrevistas especificamente porque foram confidenciais e não públicas. 

[Natalia Viana]

Os detalhes dos interrogatórios e os termos dos acordos permanecem confidenciais até nos Estados Unidos, por isso Lance não tem permissão para dar detalhes. Mas ele falou sobre como foi colaborar com os procuradores de Curitiba. 

[Dublagem Lance Jasper] 

Acho que foi muito produtivo. Achei meus colegas da força-tarefa profissionais muito inteligentes e bons no que faziam. E eles eram colaborativos. Entendiam que os Estados Unidos tinham interesse nisso porque a Petrobras vendia muitas ações nos Estados Unidos. Esta é apenas a minha perspectiva, não posso falar por eles, mas acho que entenderam que seria do interesse do Brasil ter uma relação colaborativa, em vez de uma conflitiva. Não era uma situação em que os americanos iam aparecer e dizer a eles o que fazer. E eu conheci alguns deles… jantamos em uma churrascaria em Curitiba e estava delicioso. E eu realmente gostei deles também como pessoas. Achei que eram pessoas agradáveis e inteligentes que estavam tentando tornar o país um lugar melhor.

[Natalia Viana]

Agora eu pergunto: enquanto a Petrobras é uma estatal de capital aberto, ou seja, com ações na Bolsa de Valores de NY, a Odebrecht era uma empresa familiar… Então, quais os critérios para que ela fosse investigada nos Estados Unidos? 

[Dublagem Lance Jasper] 

Acho que esse é um bom ponto. Existe uma grande diferença entre uma empresa que vende um monte de valores mobiliários para investidores americanos e uma que não vende. Neste caso, a Odebrecht não foi uma investigação da SEC por esse motivo. Foi uma investigação do Departamento de Justiça. E posso entender isso, porque a questão é que, cara, há realmente uma conexão muito menor com os Estados Unidos, mas o valor do dinheiro e as penalidades e coisas do tipo ainda são realmente grandes, e o impacto ainda é realmente grande. 

E, assim, a visão dos Estados Unidos, se tocar nos Estados Unidos, será obrigado a cumprir com as leis dos Estados Unidos. E isso incluirá o FCPA, a lei de práticas de corrupção no exterior, que basicamente diz que você não pode ter uma conexão comercial com os Estados Unidos e subornar funcionários estrangeiros como parte do seu negócio.

[Natalia Viana]

O que ele tá dizendo é que havia de fato uma razão muito mais concreta para se investigar a Petrobras do que a Odebrecht, já que a empreiteira era uma empresa brasileira, de capital fechado, pagando propina com dinheiro brasileiro para políticos brasileiros… ou seja, os atos de corrupção da Odebrecht não tinham tanto a ver com os americanos, a não ser pelo fato de que algumas das reuniões entre os articuladores do esquema ocorreram aqui. Eu ainda tentei arrancar dele a informação sobre como começou a investigação da SEC, perguntei algumas vezes, de jeitos diferentes. 

[Dublagem Lance Jasper] 

O que posso dizer publicamente sobre isso é que a SEC e o Departamento de Justiça tinham cada um uma investigação relacionada à Petrobras. Havia também muitas outras investigações relacionadas à Petrobras envolvendo outras empresas como Odebrecht e Braskem. Trabalhamos em paralelo, e às vezes coordenamos, mas tomamos nossas próprias decisões. Não posso divulgar neste caso quem abriu a investigação primeiro, mas posso dizer que, frequentemente, as agências… As agências abrem suas próprias investigações, mas às vezes o Departamento de Justiça encaminha um caso para a SEC ou a SEC encaminha um caso para o Departamento de Justiça.

[Natalia Viana]

Aí poderia existir uma dica importante. Como já ouvimos nos outros episódios, as petroleiras americanas estavam pressionando a embaixada a agir contra a lei do pré-sal, então, não seria impossível que a investigação tivesse surgido de um pedido do Departamento de Estado, de um embaixador, ou até de uma dica anônima… Porque uma coisa é certa: existem muitas empresas corruptas no mundo, então como a SEC decide que empresa vai investigar? 

[Dublagem Lance Jasper] 

A maioria dos casos que a SEC abre vem do que chamamos de dicas, reclamações e encaminhamentos. Isso pode ser alguém que reclama que foi vítima de fraude, por exemplo. Outro exemplo pode ser que nós recebemos um encaminhamento da entidade que regula os corretores de ações, e eles dizem que observaram uma atividade de mercado estranha e talvez a gente queira investigar. Mas a SEC também monitora os mercados e as notícias e quando vê algo, decide investigar. 

[Natalia Viana]

Nesse jogo de esconde-esconde, a resposta para minha pergunta principal continuava distante: Os EUA estão por trás da Lava Jato ou isso é só uma teoria da conspiração? Lance Jasper já ouviu muitas teorias, e tinha uma visão clara sobre o assunto. 

[Dublagem Lance Jasper] 

E, assim como nos Estados Unidos, acho que o Brasil tem teorias da conspiração e desinformação circulando por aí. E eu não posso entrar em todos os detalhes por causa da natureza do meu trabalho, mas posso dizer que isso, o esquema de patronagem política, a corrupção na Petrobras, foi uma coisa muito real que aconteceu. Eu vi os documentos. Conheci pessoas-chave. Quero dizer, eu estive cara a cara com pessoas-chave nisso. Foi algo real. E as evidências descobertas pela força-tarefa e que se tornaram públicas através do juiz Moro e dos depoimentos públicos de pessoas como Paulo Roberto Costa, detalham exatamente como isso aconteceu. 

[Natalia Viana]

Sim, sabemos, houve corrupção. Mas o que ele está dizendo puxa um fio do que foi falado no decorrer dessa série: há diferentes tipos de corrupção, entre eles a patronagem, que é um modelo de financiamento de todo um sistema. Para o Lance, isso é diferente de uma propina ou suborno, quando um político recebe uma verba para conseguir uma vantagem ou um contrato específico. Justamente por isso existem várias críticas sobre a aplicação da FCPA contra a Petrobras e Odebrecht, perguntei o que ele achava disso.

[Dublagem Lance Jasper] 

Eu acho que entendo a crítica. Acho que se você sair do caso e pensar, bem, isso é uma empresa brasileira, uma empresa nacional de petróleo brasileira… E você poderia ver a história como se os Estados Unidos tivessem vindo aqui. Eles obtiveram um veredicto de quase 2 bilhões de dólares contra essa empresa. E isso teve consequências reais para as pessoas no Brasil. Pessoas que trabalhavam nessa empresa e que, então, perderam seus empregos. E houve outros efeitos disso. Então, eu entendo a crítica nesse sentido. 

Então, se a pergunta é, bem, por que isso é um problema dos Estados Unidos, acho que alguém da área de aplicação da lei diria, bem, isso se tornou problema dos Estados Unidos quando a Petrobras veio e vendeu 10 bilhões de dólares em valores mobiliários, sem falar sobre o que estava acontecendo com a corrupção política, o impacto que estava tendo nos grandes contratos, nas grandes refinarias, essa seria a perspectiva da SEC.

Então, não é como se os Estados Unidos tivesse vindo e pegado um monte de dinheiro, certo, pra comprar coisas bacanas com isso. Muito do dinheiro ficou no Brasil e muito foi para investidores que foram prejudicados. E acho que a última coisa que eu diria é que não é bom deixar esses grandes escândalos de corrupção continuarem porque isso prejudica as pessoas a longo prazo. Então, minha explicação para aqueles que não gostam do resultado disso, e eu entendo, é que eu espero que a longo prazo seja melhor para o Brasil.

[Lance Jasper] 

I hope in the long run, it is better for Brazil.

Efeito sonoro: pausa

[Natalia Viana]

Mas será mesmo que a melhor estratégia de combate à corrupção global é permitir que um país com vários interesses econômicos decida qual, como e quando investigar as empresas estrangeiras? Lance Jasper me confidenciou que tem sentimentos conflitantes sobre isso: 

But you also mentioned before that you had mixed feelings about the jurisdiction, criminal jurisdiction of the U.S. Can you explain that? 

[Dublagem Lance Jasper]  

Eu tenho, porque acho que isso tende a colocar os Estados Unidos em um papel de polícia mundial. E há pontos positivos e negativos nisso, certo? O ponto positivo é que os Estados Unidos estão em uma posição para combater a corrupção globalmente, a lavagem de dinheiro, o tráfico e algumas dessas questões que você gostaria que alguém enfrentasse. E, para o bem ou para o mal, os Estados Unidos têm sido um dos principais players nisso, devido ao seu tamanho. Mas também acho que há preocupação em respeitar outros países e a harmonia com outros países.

Trilha sonora clima interferência 

[Natalia Viana]

Tem uma coisa que não se pode negar: Lance, aparentemente, tem uma carreira de sucesso  depois do caso da Petrobras. Imagine um homem de meia idade, loiro, com olhos azuis e um rosto amigável, vestido perfeitamente com um paletó bem cortado. O escritório dele atende grandes clientes, e tudo reflete esse posicionamento de mercado: desde a roupa da recepcionista até as luzes escondidas nas paredes, os quitutes finos e chás que são oferecidos na sala de reunião. É por isso que, cuidadoso, ele pediu para ouvir tudo o que falou na entrevista, algo não muito comum no jornalismo. E eu expliquei para a Amanda e a Alice o caos que foi esse processo:

O que para mim foi bem interessante nessas conversas, é que eles morrem de preocupação de falar com jornalista estrangeiro, e principalmente de divulgar qualquer informação que possa ser classificada, porque senão eles podem ser perseguidos, processados e presos. Ficou muito claro que eles são muito assim, “não, eu preciso cuidar do interesse americano”, o tempo inteiro.  

Então o Lance, olha só, eu mandei as perguntas antes. Ele me mandou, a gente teve uma conversa inicial, eu anotei as respostas em bullet points, mandei pra ele e falei, olha, é isso que você falou que você vai me falar. Depois ele revisou e isso me mandou. Aí eu fui lá fiz a entrevista, durou uma hora e vinte depois da entrevista eu dei o contratinho pra ele e falei assim, “ah então, mas eu vou revisar essa entrevista antes de assinar” 

[Alice] 

Ele quer ouvir?

[Natalia Viana]

Ele queria ouvir antes de assinar. Aí eu falei, eu não vou embora sem essa assinatura desse homem, senão eu vim até aqui, vim até Los Angeles. Aí ele falou assim, “não, eu posso ouvir agora”. Aí eu falei, “então ouça agora”. Aí eu sentei do outro lado da mesa dele. 

[Alice] 

Vou esperar.  

[Natalia Viana]

Ele falou, vai almoçar. Eu falei, não vou almoçar. 

[Amanda Audi]

Ele ouviu por uma hora e vinte?

[Natalia Viana] 

Ele colocou no rapidinho, demorou uns 50 minutos ele ouvindo daí eu fiquei lá na frente, falei, “não saio daqui pra nada, não vou nem ao banheiro”.

Ainda bem que você não perdeu nada de relevante, foi só preciosismo mesmo. No final, deu certo, entrevista garantida. Ainda assim, eu continuava tentando falar com alguns dos agentes do FBI. Depois de várias tentativas, eis que recebo uma resposta positiva: 

Efeito sonoro: Alerta de mensagem 

“I could talk about my journey from teaching to the FBI back to teaching”

Quase caí pra trás, enquanto lia a mensagem de uma agente do FBI topando uma entrevista. Seu nome é June Drake. E como todos os demais, tudo o que eu sabia sobre ela até então se resumia às mensagens da Vaza Jato. 

Trilha sonora clima de interferência

Segundo os diálogos vazados, o adido-adjunto do FBI, David Williams, buscou informações com June para ajudar a quebrar a criptografia do sistema MyWebDay, que reunia contabilidade de propinas da Odebrecht. Lembrando que toda essa comunicação era feita na informalidade, na base da “intel”, longe dos olhos do governo brasileiro. Além disso, quando os procuradores começaram a olhar os escritórios ligados à empresa Mossack Fonseca — aquela dos Panamá Papers — outras mensagens indicavam que a PF estava fazendo a ponte com o FBI para pedir ajuda para apreender bases de dados sobre a empresa.

No meio disso tudo, estava a jovem agente do FBI, June Drake. Em de 31 de agosto de 2016, ela fez uma visita ao MPF de Curitiba para pedir informações sobre a Mossack Fonseca e foi apresentada como “substituta” do Patrick Kramer, aquele, que hoje trabalha como investigador privado. Segundo os diálogos, os agentes do FBI não saíram dessa visita com muita coisa e desta vez, foram encaminhados para a área de cooperação internacional da PGR, como manda o figurino. Resolvi encarar a ponte aérea, mais uma vez em direção à Flórida, agora para uma cidadezinha sonolenta chamada Mount Dora.

Efeito sonoro: ambiência voo 

Good morning and welcome aboard, my name is Julianne, I’m going to be your flight leader on today’s flight and I’m assisted by three other safety presentations of our Airbus 321 

Cheguei tarde da noite, mas estava tão ansiosa pela entrevista que mal dormi. Mount Dora é um paraíso dos aposentados, com seus habitantes simpáticos e a grama sempre verde, o que explica o constante barulho de cortadores de grama por toda parte.

Efeito sonoro: cortadores de grama 

Foi nessa cidadezinha que June conseguiu um emprego depois de trabalhar por mais de dez anos no FBI. Aqui, ela tenta se reinventar: virou professora de escola secundária. De fato, poucos dias antes da minha chegada, reparei uma coisa curiosa: a June trocou a foto do seu perfil no LinkedIn, de uma imagem de óculos escuros dentro de um helicóptero, uma referência aos tempos de FBI, para uma foto mais meiga, em tons pasteis, longos cabelos negros solto e um sorriso doce diante de uma pintura colorida escrita: “be love”. 

Muito obrigada por falar comigo. Eu vou começar pedindo para você se apresentar.

[June Drake]

Eu sou June Drake, ou Juni Draki no português.

[Natalia Viana] 

A nova imagem de June se materializava também ao vivo. Uma mulher de trinta e poucos anos, cabelos negros, olhos azuis, óculos redondos e um vestido branco, uma imagem muito distinta do que os filmes americanos nos fizeram imaginar de uma agente do FBI. Nossa entrevista é em português, idioma que June domina com fluência, apesar de eu ter que relembrar algumas palavrinhas. 

[June Drake]

Eu sou da Flórida, estudei na Universidade da Flórida. Tenho uma licenciatura em antropologia e um mestrado em ciências forenses.

[Natalia Viana] 

Enquanto trabalhava no FBI, atuou como Assistente Legal Adjunta no Consulado em São Paulo e na embaixada em Brasília. Fora isso, ela estuda português do Brasil há pelo menos 12 anos. Foi pelo seu background em  antropologia que eu quis perguntar pra ela: o Brasil é um país mais corrupto que os demais?  

[June Drake]

Não. Acho que não. A corrupção existe em muitas… em muitas sociedades. Existe no México. É muito forte lá, posso dizer. Mas na América Latina, acho que tem uma ligação com governos militar, regimes militares. E isso aconteceu em muitos países. Eu falei com meus alunos hoje, isso aconteceu em Guatemala, El Salvador, Nicarágua. Está acontecendo agora em Venezuela, Brasil, Argentina. 

[Natalia Viana] 

A resposta me surpreendeu, principalmente por vir de uma ex-agente do FBI. Mas talvez ela tenha razão. Afinal, se olharmos com cuidado para a história que viemos destrinchando nessa série, fica bem claro que a máquina de propinas da Odebrecht nasceu mesmo lá na época da ditadura, com os primeiros grandes contratos com o governo federal, ou seja, quanto maior a censura contra a imprensa, que suprime séries como essa daqui, mais fácil a corrupção se entranhar no governo e na sociedade. 

E deixa eu só te fazer uma pergunta que os meus ouvintes vão fazer. Você sabe que o governo americano apoiou a maior parte desses regimes autoritários. 

[June Drake] 

Sim, existe umas coisas. Eu estudei na Escola das Américas, School of Americas. Sim, eu sei um pouco disso. Não muito. 

[Natalia Viana] 

Não sei dizer se June é uma agente típica do FBI. Além de estarmos sentadas em uma sala de aula com desenhos coloridos na parede, está claro que ela é progressista, quer dizer, democrata, segundo a divisão política estadunidense. Ela decidiu ingressar no FBI movida por uma vontade nobre de lidar com casos de violação de direitos humanos. Mas como ela foi parar no Brasil, investigando casos de corrupção?

[June Drake] 

Tive um mentor com quem trabalhei no meu primeiro escritório, Phoenix, Arizona, ele fez um trabalho com a sua igreja no Brasil. Falava muito bem o português. Se tornou agente especial do FBI. Trabalhei com ele no Phoenix e ele se tornou um adido na Embaixada dos Estados Unidos no Brasil. E ele falou para mim como já falava espanhol muito bem. E já tinha vontade de aprender o português. “Nossa, você deveria estudar o português” e comecei a estudar o português depois disso. E acabei com a oportunidade de trabalhar no Brasil no ano 2016. Precisamente quando começaram os problemas, as questões das investigações da corrupção internacional.

[Natalia Viana] 

Quando ela falou o nome deste agente, levei um choque. Era um dos agentes que eu estava procurando: David Williams. 

[June Drake] 

Infelizmente, David faleceu há… Inesperadamente… Quando ele terminou seu tempo no Brasil, voltou para Phoenix e saiu a fazer cooper e teve um problema do coração e faleceu.

[Natalia Viana] 

Jura? 

[June Drake] 

Quando eu trabalhei no Brasil pela segunda vez, recebi notícias de isso e fiquei muito… muito… Nossa. Sim, muito triste.

[Natalia Viana] 

E David Williams não foi o único agente que June mencionou. Logo que cheguei, eu perguntei sobre todos os agentes que eu conhecia por nome. Ela fez um retrato vívido, por exemplo, de Patrick Kramer, um homem militar, assim meio ríspido, seco e disciplinado, exatamente como eu tinha imaginado. Ela também avisou que quem ainda está no FBI jamais concederia uma entrevista. E o que você pode falar sobre o trabalho em si que você fez, o seu dia a dia? 

[June Drake] 

O trabalho é da corrupção internacional nas nossas embaixadas e consulados, maiormente, é fazer ligações com as agências federais do país. Então, eu encaminhei informações para a Polícia Federal, eu assisti reuniões com a Polícia Federal, assisti reuniões com… Federal Foreign Corrupt Practices Act, FCPA. Parte do trabalho é educar e ensinar o que é o FCPA para os grandes negócios e escritórios do Brasil, para que eles tenham em mente quais são as leis internacionais, as leis dos Estados Unidos, onde eles precisam seguir para evitar ficar no alvo dos Estados Unidos

[Natalia Viana] 

Então, June confirmou o que Bassem Youssef já tinha falado: grande parte do trabalho é desenvolver relações com os polícias, procuradores e autoridades locais. 

Por que que é necessário, para que serve esse tipo de trabalho? Digo, com as polícias, né? 

[June Drake] 

Serve para encaminhar, para ser a pessoa que faz a ligação entre o caso nos Estados Unidos e o caso no Brasil para ajudar o trabalho dos Estados Unidos e também fazer conexões com o trabalho que estão fazendo no Brasil.

[Natalia Viana] 

E como é que foi a relação com os policiais brasileiros, os policiais federais? Tinha uma parceria boa? Eles entendem o trabalho do FBI? Eles entendem essa troca? 

[June Drake] 

Sim, eu acho que o trabalho bilateral do FBI com a Polícia Federal do Brasil é temos uma boa amizade.

[Natalia Viana] 

É curioso que a relação entre agentes do FBI e policiais federais seja tratada em termos de “amizade”, mesmo que, por vezes, essa cooperação seja marcada por interesses nacionais conflitantes. Além disso, a June falou um pouco mais sobre como o contexto político afetava seu trabalho. 

[June Drake] 

Quando trabalhei a primeira vez no Brasil, isso foi de agosto até novembro de 2016. Então, isso era administração de Obama. Quando se tornou a combinação de Trump com Bolsonaro, eu achei que íamos ter problemas na presidência do Trump nas questões internacionais. Porque ele é uma pessoa de isolamento. Mas uma coisa interessante a um nível microscópico, eu trabalhei casos do terrorismo naquele momento. Estava no escritório de Miami e fiquei numa equipe de terrorismo internacional com foco na América Latina. E sim, como eles tinham um bromance, conseguimos avançar nos casos do terrorismo. 

[Natalia Viana] 

Tinha mais abertura da Polícia Federal? 

[June Drake] 

Acho que sim.

[Natalia Viana] 

“Bromance”, né, um romance entre “bros”, entre cavalheiros, é como ela chama a proximidade entre Jair Bolsonaro e Donald Trump. Algo, que como você ouviu nessa série, teve como consequência maior presença oficial do FBI por aqui, mais acordos de compartilhamento de informação e até visitas mal explicadas ao FBI em Washington feitas pelo então ministro Sérgio Moro. 

Trilha sonora clima suspense “intimista”

À essa altura você deve estar se perguntando o que levou June a nos dar essa entrevista? Como eu já falei, ela não trabalha mais para o FBI e está em meio a uma transição de carreira. A razão por trás dessa mudança é sério: saúde mental. June teve uma fase difícil e não se sentiu apoiada dentro do FBI. Por isso hoje seu objetivo é ajudar outras pessoas a cuidarem de sua saúde emocional e psicológica. Ela até tem um podcast sobre o tema. 

O relato de June me faz lembrar da conversa com Bassem Youssef, que evidencia que a pressão dentro do FBI é enorme e há pouco espaço para quem não segue à risca as expectativas. Mesmo decepcionada com o fim abrupto e prematuro do seu trabalho no FBI, June toma todo o cuidado para não falar sobre sua atuação no Brasil.  

Você pode explicar quais são as regras do que você não pode falar, só para a gente deixar claro? Você não pode falar sobre casos? 

[June Drake] 

Não posso falar sobre os casos.

Efeito sonoro: pausa, silêncio

[Natalia Viana] 

Antes dessa entrevista, não sabia o que esperar da conversa com June Drake. Encontrei um ser humano, uma pessoa que viveu apenas uma parte dessa história, e que, talvez, se soubesse de todo o impacto da Lava Jato, nem gostasse do resultado. O que me lembra um pouco o que disse Lance Jasper: para entender como funciona a fera, não adianta pensar no governo americano como se fosse uma coisa monolítica. São milhares de pessoas trabalhando de maneira ora consciente, na maior parte inconsciente, pelo interesse nacional. 

Trilha sonora clima reflexivo 

Tanto cuidado de June, Lancer Jasper e mesmo Bassem Youssef deixam claro que enquanto nossos agentes da PF e procuradores compartilhavam informações,   davam dicas de como contornar limites legais e tiravam fotos com agentes do FBI, os interesses americanos – para eles – pairam acima de tudo, e acima de todos. 

Retornando ao Brasil, para os momentos finais desta investigação recebo uma nova pista de um peso-pesado do jornalismo brasileiro, Rubens Valente. Veterano de muitas coberturas de operações anticorrupção, incluindo a Lava Jato. Ele tem fontes de confiança dentro da PF e algumas cartas guardadas na manga:

[Ligação Rubens Valente]

Oi, Natalia. 

[Natalia Viana] 

Oi, Rubens, tudo bem, 

[Rubens Valente]

Oi, desculpa a correria aqui, eu tava numa entrevista e cheguei aqui num evento da … 

[Natalia Viana] 

Que evento é esse? 

[Rubens Valente]

É da Polícia Federal, é da perícia, acabaram me chamando aqui pra vir por coincidência.

Trilha da série 

[Ricardo Terto]

Você está ouvindo uma áudio série, Original Audible. Para conhecer mais histórias surpreendentes e imersivas como está, acesse o site audible.com.br. Faça sua conta e teste grátis por 30 dias ou por 3 meses, se você for membro Amazon Prime.

Fonte: clique aqui.

Você gostou desse conteúdo? Compartilhe!

COMMENTS