Esta matéria foi originalmente publicada no Documented, um meio independente e sem fins lucrativos que cobre comunidades imigrantes em Nova York. Confira a versão original
Ronald Nazaire esperou mais de meio século pelo retorno do Haiti à Copa do Mundo. Mas, para Nazaire, fundador e presidente de um clube haitiano de futebol no Queens, na cidade de Nova York, a conquista da seleção tem um sabor agridoce, já que as proibições de viagens impostas por Donald Trump ameaçam deixar os torcedores de fora da festa.
“Esperamos 52 anos para nos classificar e agora nem podemos aproveitar. Conheço muitas pessoas no Haiti que adorariam ir, mas simplesmente não podem”, diz ele.
A Copa do Mundo foi ampliada de 32 para 48 seleções neste ano e é realizada em 16 cidades dos Estados Unidos, Canadá e México. Em março, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, havia prometido que “os EUA dariam boas-vindas ao mundo” durante o torneio.
As incertezas sobre a política migratória de Trump, porém, frustraram muitas expectativas de uma recepção calorosa para torcedores, integrantes das equipes, árbitros e até jogadores de alguns países. A poucos dias do início do torneio, torcedores haitianos já não conseguiam viajar para assistir aos jogos de sua seleção.
Suspensos. Revogados. Banidos.
Em janeiro de 2026, o Departamento de Estado suspendeu todas as categorias de visto para o Haiti, tornando, na prática, impossível a entrada de haitianos nos EUA. A medida veio após Trump anunciar a proibição total de viagens de haitianos para os EUA em junho de 2025. O governo Trump também revogou o Status de Proteção Temporária (TPS, na sigla em inglês) para imigrantes haitianos em novembro de 2025. Em mais um golpe, a Administração Federal de Aviação (FAA) recentemente prorrogou a proibição de voos dos EUA para Porto Príncipe, capital do Haiti.
Tudo isso ocorre em meio à violência prolongada no país caribenho, onde gangues armadas ainda controlam grande parte da capital Porto Príncipe e diversas cidades do interior. A violência que tomou conta do país após o assassinato do presidente Jovenel Moïse, em 2021, levou à migração de quase um milhão e meio de pessoas.
Durante as eliminatórias para a Copa do Mundo, a seleção haitiana teve de disputar todas as partidas como mandante de campo na vizinha ilha de Curaçao, devido à ameaça de violência em seu próprio país. Com isso, muitos jogadores haitianos não tiveram a chance de atuar diante da torcida local.
A proibição de viagens já afetou alguns atletas haitianos. Em março, vários jogadores do clube jamaicano Mount Pleasant FA tiveram a entrada negada nos EUA antes de uma partida da Copa dos Campeões da Concacaf contra o LA Galaxy.
O Departamento de Estado havia garantido que, durante a Copa do Mundo de 2026, “qualquer atleta ou integrante de equipe esportiva, incluindo treinadores, pessoas que desempenhem funções essenciais de apoio e familiares imediatos” estaria isento das restrições de viagem.
Nos EUA, imigrantes haitianos também têm sentido a pressão. Nos últimos meses, como parte do endurecimento das políticas migratórias, o governo Trump mirou no TPS do Haiti, um programa humanitário que permitia que imigrantes haitianos trabalhassem e vivessem legalmente nos EUA.
A mudança de política já afetou mais de 350 mil haitianos beneficiários do TPS e de programas de liberdade condicional humanitária. A disputa para preservar essas proteções chegou agora à Suprema Corte dos EUA, que deve tomar uma decisão nas próximas semanas. Enquanto isso, milhares de haitianos em Nova York — a maioria vivendo no bairro do Brooklyn — permanecem em um limbo marcado pelo medo.
“Podemos ver os efeitos na Nostrand Avenue”, afirma a vereadora haitiano-americana Rita Joseph, ao descrever como o endurecimento das políticas migratórias de Trump impactou a comunidade. “Quando o ICE começou a intensificar as deportações, aquilo virou uma cidade fantasma.”
As prisões de cidadãos haitianos pelo ICE em Nova York também aumentaram 875% no último ano, passando de 16 em 2024 para 156 em 2025. Para os haitianos, a Copa do Mundo não oferece alívio diante da ameaça cotidiana. Apesar da pressão da Fifa por uma pausa nas operações do ICE durante o torneio, o diretor interino da agência, Todd Lyons, confirmou que o ICE será uma “parte essencial da segurança geral” ao longo da competição.
A DoDor Services oferece assistência imigratória e aulas de inglês para haitianos recém-chegados aos EUA. Seus escritórios na Nostrand Avenue costumavam ser bastante movimentados, mas agora, pelo medo de detenções do ICE, muitos frequentadores deixaram de aparecer.
“Tivemos de interromper nossas aulas de idioma porque ninguém estava comparecendo”, afirmou Pascal Antoine, que administra uma rádio comunitária a partir do escritório. “Houve uma mudança perceptível no bairro.”
Desde que Trump fechou praticamente todas as vias legais de imigração para haitianos, a natureza do trabalho da DoDor mudou. Antoine explica que, pela primeira vez, a organização passou a oferecer assistência a haitianos que desejam se autodeportar. “Muitos estão procurando se mudar para o Canadá, para a América do Sul ou até voltar para o Haiti. Ficou muito difícil viver aqui”, afirma.
Outros negócios de haitianos também foram afetados. Ken Charles, funcionário do Buffet Kreyol, na Nostrand Avenue, diz que alguns de seus colegas têm evitado sair para trabalhar por medo das detenções realizadas pelo ICE. “As pessoas simplesmente têm medo de estar na rua”, afirma.
Apesar do clima de temor, o restaurante planeja realizar eventos para transmissão dos próximos jogos do Haiti na fase de grupos. “Vamos nos mobilizar para enviar a mensagem de que não somos terroristas nem criminosos. Somos seres humanos e queremos ser tratados assim”, diz Charles.
Outros integrantes da comunidade haitiana em Nova York também decidiram se mobilizar e fazer suas vozes serem ouvidas durante a Copa do Mundo.
Carla Jean-Jacques, haitiano-americana de segunda geração e assistente administrativa da DoDor, afirma sentir-se obrigada a ajudar seus compatriotas: “Meu trabalho é organizar e divulgar informações. O maior antídoto contra o medo é o conhecimento”.
Antoine, cujos pais migraram para os EUA no fim da década de 1960, conta que inicialmente teve dificuldade para abraçar sua herança haitiana. “Eu mal conseguia apontar o Haiti no mapa”, afirma. Hoje, ele encontra inspiração na geração mais jovem de migrantes haitianos, que passou a exigir maior reconhecimento. “São eles que vão assumir essa missão e continuar a luta”, afirma.
‘O futebol pode oferecer uma saída para nós’
Em 2021, Benedik Christian Augustin chegou a Nova York com TPS, deixando para trás uma promissora carreira no futebol no Haiti. Ele passou por vários clubes até encontrar um lar no Osner’s F.C. Pelo futebol, construiu conexões com outros haitianos em Nova York. “Isso é mais do que apenas um clube”, afirma. “É uma forma de construirmos comunidade e representarmos nosso país.”
Nazaire, fundador e presidente do clube, mudou-se para Nova York ainda adolescente antes de conseguir uma bolsa de estudos em futebol no Instituto de Tecnologia de Nova York. Ele afirma que o futebol pode ajudar a abrir oportunidades para imigrantes nos EUA. “O futebol pode oferecer uma saída para nós”, diz.
“Com o Osner’s FC, Nazaire busca desenvolver talentos haitianos, recrutando jogadores diretamente das seleções de base do Haiti. Ele hospeda os novos atletas na sede do clube enquanto eles se adaptam ao novo ambiente.
No entanto, a recente proibição de viagens prejudicou o recrutamento de jogadores vindos do Haiti. Em vez disso, Nazaire tentou então trazer atletas haitianos que moram na Flórida, embora alguns tenham demonstrado receio até mesmo de viajar dentro dos EUA, com medo do ICE. “Um deles ficou com tanto medo que decidiu nem vir”, relembra.
Um espírito de equipe duradouro
A seleção do Haiti é formada majoritariamente por jogadores da diáspora e tem apenas um atleta do campeonato haitiano, Woodensky Pierre. O meio-campista se juntou ao restante do elenco com uma semana de atraso devido a problemas relacionados a seu visto. No dia 2 de junho, ele reencontrou os companheiros após a vitória do Haiti sobre a Nova Zelândia, em amistoso preparatório para a Copa do Mundo realizado na Flórida.
Os “Grenadiers”, como a seleção haitiana é conhecida, viram motivo de orgulho para os haitianos no país e no exterior, inclusive para aqueles que moram em Nova York.
Os jogadores Derrick Etienne Jr. e Duke Lacroix cresceram em Nova Jersey, sendo que Etienne iniciou sua carreira no New York Red Bulls. Já o atacante Wilson Isidor decidiu recentemente defender o Haiti após atuar pelas seleções de base da França. A decisão veio apenas alguns meses depois de o Haiti garantir vaga no torneio, um fator de atração importante para trazer talentos da diáspora de volta à seleção de seu país de origem.
A última participação do Haiti em uma Copa do Mundo, há mais de 50 anos, ainda ocupa um lugar importante na memória coletiva dos haitianos. “Desde criança, todos falavam sobre o torneio de 1974.Eu assistia aos vídeos antigos; era algo com que eu só podia sonhar”, diz Augustin.
Desta vez, o Haiti espera surpreender em um grupo considerado particularmente difícil. A equipe estreou com derrota para a Escócia, em Boston, no dia 13 de junho, e agora enfrentar Brasil e Marrocos, respectivamente, na Filadélfia e em Atlanta.
Apesar da incerteza e do medo, ainda há entusiasmo com a competição. Pascal Antoine espera que a Copa do Mundo ajude a revitalizar a comunidade haitiana de Nova York.
“Trump declarou guerra contra nós e tornou nossas vidas muito difíceis. Mas não vamos a lugar nenhum. Vamos encontrar nossa voz novamente.”
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