Enquanto a indústria do uísque americano insiste em se apoiar em tradição, rótulos históricos e campanhas previsíveis, um fenômeno digital vem redefinindo quem realmente manda no setor. Em plena era da economia da atenção, TJ Gamble, criador do canal Brewzle no YouTube, consolidou-se como a figura mais influente do uísque nos Estados Unidos, mesmo sendo ignorado pelos grandes produtores.
Com mais de 800 mil inscritos e milhões de horas assistidas por ano, Gamble alcançou um patamar de influência que rivaliza, e em alguns casos supera, o das maiores destilarias do país. Seu diferencial está na quebra do formato clássico de degustações técnicas e na aposta em conteúdos irreverentes, acessíveis e virais, capazes de atrair tanto entusiastas quanto curiosos que pouco sabem sobre uísque.
Os números impressionam. Em apenas um dia, os vídeos do Brewzle acumulam o equivalente a quase dois anos de atenção contínua. Esse volume transforma o canal em uma vitrine poderosa, capaz de esvaziar prateleiras e colocar pequenas destilarias no mapa nacional em questão de dias.
Segundo Gamble, o segredo está em não falar apenas para especialistas. Ao transformar garrafas raras em experiências inesperadas, ele rompe a bolha dos conhecedores e leva o uísque a um público muito mais amplo. O resultado é direto, marcas pequenas ganham visibilidade instantânea e passam a disputar espaço com gigantes do setor.
Grandes marcas resistem ao YouTube
Apesar do impacto comprovado, as grandes empresas de uísque seguem evitando o canal. A explicação passa pelo medo de perder controle. Diferentemente de campanhas tradicionais, o YouTube não garante avaliações positivas nem permite edição da narrativa pelas marcas.
Esse receio se soma a uma preferência ainda forte por redes como o Instagram e por estratégias tradicionais de marketing, mesmo diante de evidências de que o público migrou para o consumo de vídeos longos e conteúdos autênticos.
A experiência de Gamble com outras redes reforça essa leitura. Mudanças repentinas de regras em plataformas de vídeos curtos já custaram centenas de milhares de seguidores ao canal. No YouTube, porém, o conteúdo permanece acessível, pesquisável e relevante ao longo do tempo, ampliando seu impacto comercial e cultural.
É nesse espaço que o Brewzle se consolidou como referência e passou a influenciar diretamente hábitos de consumo, especialmente ao promover seleções limitadas de barris, que costumam se esgotar rapidamente.
Pequenos produtores ganham, gigantes perdem espaço
Enquanto os grandes grupos hesitam, destilarias menores colhem os frutos da exposição. Muitas delas, sem estrutura de marketing, passam a enfrentar listas de espera e aumento abrupto da demanda após aparecerem no canal.
Esse movimento fortalece produtores artesanais e diversifica o mercado, mas também escancara o descompasso entre a indústria tradicional e a realidade do consumidor contemporâneo.
Futuro do setor
Diante da queda nas vendas de bebidas alcoólicas e do discurso recorrente sobre mudanças geracionais, o caso Brewzle levanta uma questão incômoda para o setor, talvez o problema não esteja no consumidor, mas na incapacidade das marcas de dialogar com ele onde a atenção realmente está.
Se a indústria do uísque insistir em ignorar quem concentra milhões de horas de engajamento real, o risco não será apenas perder relevância, mas ver destilarias fecharem enquanto a nova lógica do mercado avança sem pedir licença.
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