Zelenski tira do passado de humorista recursos para guerra narrativa

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ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Nos últimos dias, a internet recordou diversos vídeos do homem que hoje se encontra no centro da maior crise bélica em décadas. São imagens de Volodimir Zelenski, 44, apresentando-se em 2006 com um conjunto rosa cintilante em "Dancing with the Stars", franquia batizada de "Dança dos Famosos" no Brasil, ou dublando a animação de Paddington, um urso falante queridinho de crianças britânicas.

Outro vídeo viral resgatado do brejo virtual: uma performance de quase seis minutos em que ele, de calças arriadas, aparenta tocar piano com o pênis – um dos destaques foi a interpretação fálica de "Hava Nagila", clássico do cancioneiro judaico que significa, em hebraico, "alegremo-nos".
Alegrar conterrâneos foi, por mais de 20 anos, o ofício de Zelenski. Hoje ele atravessa uma improvável jornada: de um dos humoristas mais populares do país a presidente da Ucrânia em tempos de guerra.
Três anos antes de ser invadida pela Rússia de Vladimir Putin, a ex-costela soviética elegeu como líder um artista famoso pelo papel de um homem comum que, por piruetas do destino, vira o chefe de Estado.

"Sluha Narodu" (servo do povo) estreou em 2015 e, por três temporadas, contou a história deste professor de história que desabafa em sala de aula sobre uma nação fadada a escolher "entre os mesmos dois babacas de sempre", é gravado por um aluno, viraliza, entra na política e acaba vencendo o pleito. A série saiu do ar pouco antes de a ficção imitar a realidade, e seu ator principal ganhar a Presidência.

Quando a Ucrânia começou a ser bombardeada pelas tropas de Putin, Zelenski estava em telas por toda a parte, e a carreira prévia voltou a ser assunto, sendo citada, com ironia, por Jair Bolsonaro. "Os ucranianos confiaram a um comediante o destino de uma nação", disse o presidente brasileiro no domingo (27).

Ato contínuo, as redes destas bandas lembraram do humorista Danilo Gentili. Flerta ele também com a ideia de receber a faixa presidencial um dia. Avalizada pelo MBL (Movimento Brasil Livre), a candidatura do apresentador do SBT chegou a ser medida por alguns institutos de pesquisa. O próprio postou no Twitter, após a vitória de Zelenski, em 2019, que em 2022 ou 2026 ele estaria na praça. "Contem comigo."

André Marinho, que em 2018 fez sucesso parodiando uma conversa entre Bolsonaro e Donald Trump, à época presidente dos EUA, pediu "máximo respeito" ao líder ucraniano e a quem se dedica ao humor.

"Os defensores da agressão russa à Ucrânia acharam uma ótima ideia ridicularizar Zelenski por ele ter tido uma carreira como humorista e ator antes de ser eleito", diz à Folha o filho do empresário Paulo Marinho, que hospedou o QG da campanha bolsonarista quatro anos atrás, mas hoje faz oposição ao presidente.

"Mas sabe na companhia de quem ele está? De gente do tamanho de Ronald Reagan, responsável pela vitória do mundo livre na Guerra Fria, e sem disparar um único tiro", afirma ele sobre o ator hollywoodiano que assumiu a Casa Branca nos anos 1980. Ironia é não perceber que, ao debochar das credenciais do ucraniano, Bolsonaro alveja "o maior líder conservador da história recente", segundo Marinho.

"Nunca imaginei que fosse ver o Bozo falando mal de palhaço", diz o humorista Antonio Tabet. "Quem está hoje no poder cansou de avaliar o caráter das pessoas por religião, características físicas e até sexualidade. Não seria diferente com uma profissão que julgam menor ou vulgar. Nem todo comediante teve a sorte de ser um capitão reprovado pelo Exército ou ser um político encostado nos últimos 34 anos."

Seu colega no Porta dos Fundos, Gregorio Duvivier diz que seria lucro se o país estivesse sob jugo de um ex-comediante. "Ninguém tem dúvidas de que até Tiririca teria sido um presidente melhor que Bolsonaro."

Mais do que não atrapalhar o exercício presidencial, o passado no entretenimento pode ajudar Zelenski num conflito que é também de narrativas. "Ele sabe lidar com o público e com a câmera", diz Tabet. "Isso dá uma vantagem sobre o nada carismático Putin, sobretudo em relação à opinião pública internacional."

Os vídeos pretéritos da fase humorista de Zelenski colaborariam inclusive para torná-lo uma figura amigável, reforçando a contraposição a Putin, fotografado com frequência na cabeceira de mesas imensas, isolado, ainda que neste sábado tenha feito um esforço de imagem, ao realizar uma conversa com funcionárias da estatal aérea russa Aeroflot. Cercado de mulheres, não exigiu distanciamento.

E o ucraniano parece consciente do poder de sua retórica. Em discurso ao Parlamento Europeu, por videoconferência, fez chorar um intérprete que o traduzia para o inglês. "Provem que são realmente europeus, e então a vida vencerá a morte, e a luz vencerá as trevas."

Quando, dias atrás, líderes europeus se reuniram para debater sanções contra a Rússia, alguns titubearam sobre pegar muito pesado, como o premiê alemão, Olaf Scholz. Zelenski, então, entrou na ligação.

De acordo com o jornal Washington Post, o apelo emocional do ucraniano surtiu efeito imediato. Ele disse, essencialmente, que seu povo estava morrendo por ideais europeus. Antes de desligar, falou com uma naturalidade desconfortante que aquela poderia ser a última vez que o veriam vivo.