Veja 10 dicas de arquitetura que tornam a casa melhor para o idoso

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Maria Iracy, 83, criou espaços de circulação para poder andar livremente em casa: “Agora posso envelhecer  sem dificuldade”

Facilidade para se locomover, com liberdade. Sem tapete, mesa de centro ou qualquer obstáculo. A casa da aposentada Maria Iracy Bastos, 83 anos, já passou por muitas reformas e ajustes, mas só agora está do jeito que ela precisa para se sentir segura. “Adaptei para o meu estilo de viver: sem nada no caminho. Tenho que ter meu espaço amplo, livre, bem aberto, que me permita circular. Agora posso envelhecer sem dificuldade”, afirma.

Quando está em casa, Iracy pinta, costura e toca piano. Cozinha, lê um livro do Dalai Lama, coloca as séries da Netflix em dia. “Acabei de assistir The Crown. Você já viu Anne? É linda. Também já me falaram de Café com Aroma de Mulher, coloquei na minha lista. Gosto muito de estar em casa, comigo mesma. É meu ninho, o meu lugar que amo tanto”, diz.

A moradia ideal para envelhecer com qualidade de vida existe. E traz sensação de pertencimento, conforto e personalidade, sem deixar de criar um ambiente seguro, como explica a arquiteta especialista em Arquitetura da Longevidade, Lygia Passos Galvão. Ela destaca quatro pilares que sustentam o conceito de casa longeva: a segurança, a funcionalidade, o conforto e a memória afetiva.

“Existe uma lenda que diz que ter segurança e funcionalidade em casa significa ter resultados nada atraentes e prazerosos nos revestimentos e mobiliários. Não é verdade. E é justamente isso que a casa longeva torna viável, uma moradia em que o idoso se sinta bem sem esquecer da segurança e do conforto na modificação do espaço”, conceitua a arquiteta.

Essas características vão muito além da instalação de barras de segurança em banheiros e pisos antiderrapantes. Ouvimos especialistas em arquitetura humanizada que destacaram 10 mudanças que tornam a moradia mais amiga de quem já passou dos 60 anos. Lygia Passos Galvão complementa ainda que o check-list é extenso e vai exigir uma avaliação minuciosa em todos os ambientes da casa, inclusive, prevendo até necessidades que devem surgir lá na frente.

“Garantir a segurança e a felicidade de morar, principalmente, a de morar sozinho é uma tendência mundial. O caminho ideal é considerar o nível de atividade do idoso, suas dependências físicas e conciliar isso com um ambiente que traga e reviva seus prazeres”, acrescenta.

Na casa de Maria Iracy, por exemplo, o projeto contemplou o banheiro do quarto com a instalação de um vaso sanitário mais alto, piso antiderrapante, box mais largo, chuveiro com haste e o degrau que havia na porta foi retirado. As modificações não pararam por aí: a piscina ganhou barras e mais um piso novo, assim como a casa inteira.

Na decoração saíram os objetos de vidro e os móveis que ficaram foram adaptados a uma altura que ela pudesse alcançar. “Moro aqui há 13 anos. Gosto andar dentro de casa. Como eu dependo de uma bengalinha, tenho que ter esse espaço. Tudo que faz bem alimenta a alma e minha casa tem muito disso”, ressalta a aposentada.

Arquitetura amigável
A doutora em Urbanismo e professora da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Any Ivo explica que o termo de arquitetura humanizada está associado aos projetos de arquitetura para a saúde e, mais precisamente, a uma mudança de paradigma das instituições hospitalares num esforço de amenizar a impessoalidade desse tipo de espaço.

“Comumente, se confunde uma arquitetura para o bom envelhecimento com princípios de acessibilidade para pessoas portadoras de deficiência motora. Porém, a arquitetura deve ser entendida, nesse caso, como um dispositivo que amplia e contribui a autonomia do idoso, garantindo o envelhecimento ativo”, comenta Any Ivo.

A esse conceito, a arquiteta Itana Lemos acrescenta algumas contribuições do campo da arquitetura da saúde que estão cada vez mais presentes nos projetos voltados para moradias de pessoas acima de 60 anos. O escritório dela registrou um crescimento de 30% na procura das pessoas com 60+ em busca das modificações adequadas.

“A arquitetura da saúde traz muitas considerações que influenciam de forma efetiva e comprovada no prolongamento da vida. E é aí que entram também, termos como neuroarquitetura, biofilia, arquitetura bioclimática e psicoarquitetura. Com a pandemia, isso tudo ficou em evidência e acredito que é um caminho sem volta”, pondera Lemos.

E quanto custa essa casa? Tudo vai depender do perfil funcional, saúde e nível de dependência em que se encontra o idoso. Ou seja, para se ter noção de custos, é fundamental considerar as necessidades gerais, a metragem, os cômodos e fazer todo esse estudo detalhado.

“Um lugar para se envelhecer precisa trazer ao indivíduo a sensação de pertencimento, precisa ser a sua extensão. Logo, a casa tem que ter aspectos que falem do morador: suas memórias, o conforto climático e uma decoração com que se identifique. Tudo isso irá influenciar de forma significativa de quem quer envelhecer com qualidade”, diz a especialista.

Casa com autonomia
Antes de iniciar a reforma, o empresário Agnaldo Estêvão, 60 anos, via sua casa sem muito conforto para sua idade. “Antes, era bem diferente, sem closet, tinha um banheiro pequeno, os ambientes eram mais apertados. Agora, tenho um closet, o banheiro e a cozinha maiores, com tudo que eu preciso, além de mais modernidade”, afirma.

Para ele, a casa ideal precisa ser espaçosa, com ambientes integrados: “Principalmente, na minha velhice, quero que ela seja arejada e confortável. Amo meu espaço, aproveitar a minha varanda. É uma maravilha”.

Vale investir ainda em equipamentos de automação como sensores de presença que acendam a luz automaticamente, por exemplo. A recomendação é da arquiteta, mestre em engenharia ambiental e professora do UniRuy Wyden, Elenice Apolinário.

“Além da parte técnica, monte um ambiente aconchegante, onde o idoso possa ler um livro, fazer alguma atividade manual”, recomenda.

E para tornar a casa um ambiente mais tranquilo e com mais conforto acústico, a orientação do arquiteto Fred Azevedo é usar materiais absorvedores, entre eles, forros e cortinas. “Ajudam muito a diminuir a reverberação acústica sem ser necessário fazer uma intervenção nas paredes”, aconselha.

Lugar ideal
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida no Brasil, em 2020, foi de 76,8 anos. Na Bahia, a idade é de 74,4 anos. Isso é mais um fator que explica porque é tão crescente a preocupação com a longevidade da população. Arquiteta e professora da Ufba, Patrícia Farias pontua que, para além das residências, é fundamental que as cidades também sejam dotadas de espaços pensados para atender ao envelhecimento.

O assunto é tema do evento baiano 1º Seminário Online Cidade para Todas as Idades – Diretrizes Urbanísticas para o Bom Envelhecimento, que acontece entre os dias 5 a 7 de abril. As inscrições podem ser feitas no e-mail cidadeparatodasasidades@gmail.com.

“A mobilidade urbana, os espaços públicos, os equipamentos de lazer e cultura fomentam a vida coletiva e, consequentemente, influenciam na qualidade de vida dessa população. Discutir sobre o espaço de moradia do idoso é compreender essa temática para que seja possível planejar um futuro sustentável e com envelhecimento saudável”, enfatiza Farias.

COMO É A CASA AMIGÁVEL

1.Circulação de ar
É essencial priorizar a Iluminação e ventilação natural. Um ambiente fechado contribui para dificuldades respiratórias, alergias e propagação de doenças transmissíveis pelo ar.

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2. Mais verde
Quando mais plantas na casa, melhor. Ao cuidar de uma plantinha, você tem a sensação de bem-estar, conforto e, em consequência, mais saúde emocional.

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3. Mobília
Revise toda mobília dos ambientes. Evite móveis baixos e aposte em poltronas e estofados que sejam mais fáceis de sentar e levantar. Prefira móveis com cantos arredondados e abra mão de tapetes.

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4. Passagens desobstruídas
Tire de dentro de casa móveis de centro que possam ser um obstáculo. As portas devem ter, no mínimo, 80 cm de largura. A casa deve ainda ter áreas planas sem muitas diferenças de níveis, além de corredores amplos e pisos antiderrapantes. Também é imprescindível corrimão em escadas, mesmo aquelas com poucos degraus.

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5. Banheiros
Aqui, o investimento é em segurança e acessibilidade. Barras, pisos com uma certa textura e antiderrapantes, além de um vaso sanitário com altura maior.

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6. Automação
Outra tendência das casas com uma arquitetura mais voltada para idosos está na utilização de sensor de presença nas luminárias e luzes de circulação, e também de dispositivos de segurança, como detectores de fumaça e um botão de pânico.

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7. Acesso
É importante rever a altura de interruptores e tomadas, que devem ser de fácil acesso, assim como os tipos de maçanetas, torneiras e puxadores, que precisam ser simples e fáceis de manusear. Atenção ainda nos armários: é necessário que eles tenham uma altura que permita também o acesso sem esforço ou escadinhas.

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8. Ruídos
O barulho externo ou interno pode ser amenizado com isolamento acústico. Tecidos adequados em cortinas, almofadas e estofados ajudam bastante.

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9. Espaços
Libere espaços, focando em objetos eficientes e versáteis. Faça uma limpeza de desapego no acúmulo de objetos que hoje são desnecessários. A casa, inclusive, pode ganhar um novo cantinho para uma atividade que goste de fazer: cozinhar, ler, costurar, desenhar, por exemplo.

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10. Lar doce lar
Um lugar ideal para se envelhecer precisar trazer a sensação de pertencimento: suas memórias afetivas, o conforto climático e uma decoração com a qual o morador se identifique.