Turista surpreendido pela guerra nas férias volta para lutar na Ucrânia

14

GIULIANA MIRANDA
LISBOA, PORTUGAL (FOLHAPRESS) – Em férias com os amigos em uma viagem por várias cidades europeias, o ucraniano Roslislav Burilo, 22, foi surpreendido pelo ataque da Rússia a seu país enquanto aproveitava os dias ensolarados no sul do continente.

Mesmo podendo permanecer em segurança em Portugal, que garantiu legalização automática para todos os refugiados do conflito, ele tenta agora regressar a Kiev para se juntar às forças de resistência.

Embora nunca tenha estado ativamente engajado no Exército, o jovem frequentou uma academia militar durante a universidade e, por isso, faz parte do contingente da reserva das Forças Armadas. "Como estou na reserva, sou militarmente obrigado a retornar para a guerra. Mas eu quero voltar, porque minha família e meus amigos estão lá. Tenho amigos que estão agora na linha de frente lutando pelo país", diz.

"Eu tento usar pensamento crítico para tudo, mas acho que chegou a hora de ser patriótico. Os ucranianos perceberam que têm de lutar unidos."
Quando a invasão russa aconteceu, em 24 de fevereiro, ele estava na ilha de Tenerife, na Espanha. Para ter melhores conexões para voltar para casa, o jovem decidiu viajar até Lisboa, onde a comunidade ucraniana criou uma robusta força-tarefa de apoio às vítimas do conflito.
O plano inicial de Ross, como é chamado pelos amigos, era pegar carona no comboio de ajuda humanitária que sairá de Portugal para a fronteira da Ucrânia neste fim de semana. Pouco antes do embarque, porém, conseguiu uma passagem de avião para a Polônia nesta segunda-feira (7).

Natural de Lviv, cidade próxima à fronteira com a Polônia, ele relata que a família se recusou a deixar o país. "Eu avisei para todos que há uma grande comunidade de ucranianos em Portugal, que eles poderiam ajudá-los com tudo para vir", conta. "Mas não adiantou, eles não quiseram. Falaram-me que aquela é a terra deles e que, se for preciso, morrem lá."

Conversar sobre a guerra e a família em risco na Ucrânia é a única coisa que tira o sorriso do rosto de Ross, que ostenta um corte de cabelo descolado, piercing nas duas orelhas e grandes olhos verdes. Ele diz que, quando iniciou sua viagem, há cerca de um mês, achava que não haveria uma invasão.

"Em novembro e dezembro, quando começaram a falar na possibilidade de guerra, todos ficamos muito assustados. Depois, pareceu que as coisas se acalmaram, e o estresse diminuiu."

Por isso, Ross lembra a notícia do começo da ofensiva como um momento particularmente duro. "Saber que a Ucrânia tinha sido atacada foi uma mistura de sentimentos, todos muito negativos", relata. "Primeiro a frustração, depois veio a raiva e, por fim, a desesperança, porque meus pais estavam lá, e eu sabia que não podia fazer nada. Então eu comecei a tentar a ter um pensamento estratégico, a tentar racionalizar o que poderia fazer."

Na avaliação dele, a invasão completa do país serviu para revelar ao mundo a face autoritária de Vladimir Putin, algo que, diz ele, é bem conhecido pelos ucranianos há muitos anos.

"A Ucrânia vive uma guerra híbrida desde 2014 [anexação da Crimeia e apoio à independência de Donetsk e Lugansk], mas a comunidade internacional não levava isso a sério", avalia.
Enquanto espera pelo retorno, ele atua como voluntário na associação Ukrainian Refugees UAPT, que oferece desde mantimentos e outras doações até auxílio jurídico e alojamento.

Nos poucos momentos de descontração, conseguiu passear um pouco pela capital portuguesa. "Eu cheguei na época do Carnaval e foi muito bonito ver a animação. Os portugueses são muito acolhedores. As pessoas também se importam bastante com a situação. Sempre que eu digo que sou ucraniano, todo mundo demonstra muito apoio", relata.
Ross diz ainda ter se surpreendido com a numerosa comunidade brasileira em Portugal, que também tem demonstrado preocupação com a situação de seu país.

Prestes a embarcar para a guerra, ele tenta manter o pensamento positivo sobre seu futuro e o destino da própria Ucrânia. "Eu vou para Lviv e vou me apresentar ao Exército, se me aceitarem. Talvez eu só tenha de me juntar na próxima onda de convocações, mas vou estar lá para ajudar, inclusive os refugiados de outras regiões", afirma. "Também acho que posso continuar a trabalhar remotamente na associação de Portugal. O que quero é fazer o máximo possível, porque agora é a hora de ajudar a todos."

De acordo com a agência de segurança nas fronteiras de Kiev, mais de 50 mil ucranianos residentes no exterior voltaram ao país para se juntar ao Exército no esforço de guerra.