Quem foi o psicólogo que mudou a economia e as finanças?

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Quem foi o psicólogo que mudou a economia e as finanças?

Não é exagero afirmar que Daniel Kahneman e seu parceiro de longa data, Amos Tversky, revolucionaram a forma como a economia e as finanças compreendem os seres humanos. Disto decorre, naturalmente, que as previsões e modelagem acerca do comportamento humano em um ambiente econômico-financeiro também precisou ser revisto. As suas contribuições foram duradoras e profundas.

Israelenses e psicólogos, Kahneman e Tversky se conhecerem na Universidade Hebraica de Jerusalém, onde ambos lecionavam na década de 1960. De acordo com o livro “O Projeto Desfazer”, no qual o autor Michael Lewis conta a história desta parceria e amizade, a conexão entre ambos foi imediata e tão intensa que chegava ao ponto de um completar a frase que o outro havia começado. Uma das parcerias científicas mais profícuas e longevas que se tem notícia. A parceria durou décadas e sobreviveu a mudança de ambos para os Estados Unidos.

Ambos são considerados os pais da economia comportamental. Na verdade, provavelmente essa não é uma boa denominação. Afinal, os resultados obtidos com o auxílio da psicologia estão muito mais relacionados à psicologia cognitiva do que propriamente à psicologia comportamental (mais conhecida pelo neologismo behaviorismo). De qualquer forma, foi o nome que pegou.

Tversky nos deixou muito cedo, em 1996, com apenas 59 anos de idade, vítima de um melanoma. Kahneman acabou de nos deixar, em 27 de março de 2024, aos 90 anos de idade. Ambos deixam um legado de décadas de pesquisa e descobertas.

Por receber o Prêmio Nobel de Economia em 2002, Kahneman ficou mundialmente conhecido. Tversky não dividiu o prêmio com seu parceiro e amigo apenas pelo fato do prêmio Nobel não ser concedido de forma póstuma. Mas divide todo o crédito com o laureado.

Rápido e Devagar: duas formas de pensar

Em 2011 Kahneman escreveu um livro para leigos, que rapidamente virou um best-seller, o seu “Rápido e Devagar: duas formas de pensar” No livro resume as suas pesquisas com Amos e os surpreendentes resultados a que chegaram. Mais que um livro sobre economia e finanças, engloba muitos outros campos como tomada de decisão, percepção, investimentos em uma discussão de fundo sobre como funciona a mente humana e quais cuidados devemos ter com isso.

A maior contribuição de ambos para a economia e as finanças foi que após décadas dos economistas e financistas partindo do pressuposto que o ser humano seria plenamente racional, na teoria padrão de economia e finanças, marginalizando o papel da psiquê humana nas decisões econômico-financeiras, a psicologia voltava a ter um papel central na teoria de finanças.

O pressuposto de que os seres humanos são sempre plenamente racionais quando se trata de decisões financeiras parecia uma boa aproximação da realidade para a teoria econômica. Isso não queria dizer que os investidores não erravam, claro, o que seria um absurdo. A ideia era que os investidores individualmente erravam sim, para mais ou para menos, mas que no conjunto total de agentes econômicos esses erros tendiam a se cancelar, aqueles que erravam para mais compensavam os que erravam para menos.

Logo, em média, os agentes econômicos tendiam a ser plenamente racionais por esse processo de compensação de erros. A racionalidade plena não era um atributo individual, mas sim coletivo dos agentes econômicos. Parecia funcionar muito bem tanto na teoria quanto na prática.

Essa ideia foi colocada em xeque por Kahneman e Tversky, os quais argumentaram que o processo de raciocínio da mente humana pode ser dividido basicamente em dois sistemas, o qual propositalmente chamam de sistema 1 e sistema 2.

Sistemas 1 e 2

Caso fossem outros nomes seriam difíceis de lembrar, então optaram pela simplicidade. O sistema 1, o “rápido” do título do livro, é aquele que nos permite reagir instantaneamente ao ambiente e foi primordial na sobrevivência da espécie humana, sendo responsável por constantemente monitorar o ambiente que nos cerca. Ele funciona quase no “automático”, ou seja, temos pouco controle consciente sobre ele, o qual gasta relativamente pouca energia. As suas respostas são instintivas e condicionadas por milhares de anos de evolução biológica.

Um exemplo simples ocorre quando tocamos a mãos em uma superfície quente como um fogão, imediatamente o sistema 1 retira as mãos, quase que por reflexo e a dor e percepção do que aconteceu só é processada posteriormente. Esse procedimento mental minimiza os danos físicos às mãos na superfície quente, e foi talhado em milhares de anos de evolução do ser humano.

O sistema 2 é o “devagar” do título do livro. Representa o sistema de raciocínio racional, lógico e matemático do cérebro. Ao contrário do sistema 1 que funciona quase autonomamente, o sistema 2 precisa ser acionado, fica, digamos em stand by até ser acionado pelo sistema 1, já que é grande consumidor de energia.

Quando utilizado ininterruptamente por muito tempo, pode levar à exaustão. Quando fazemos uma longa prova de matemática, por exemplo, muitas vezes nos sentimos exaustos ao final dela. Mas, o que aconteceu? Afinal, sequer nos mexemos, ficamos sentados o tempo o todo.

O cansaço é fruto de uso prolongado do sistema 2, com alto gasto de energia mental, que nos leva à sensação similar a de um esforço físico prolongado. Os dois sistemas são ótimos, cada qual funciona muito bem em suas atividades.

Falhamos, contudo, às vezes na interação entre os dois sistemas. Notadamente muitas vezes utilizamos o sistema 1 quando seria muito mais adequado acionar o sistema 2. Ao assistir uma aula complexa ou um filme com enredo mais elaborado, às vezes nos desligamos brevemente do conteúdo e perdemos a linha de raciocínio. O sistema 1 assumiu nesse ínterim o controle e não conseguiu processar informações mais complexas.

Vieses cognitivos

O cérebro humano reluta em acionar o sistema 2, pois ele é “devagar”, gasta muita energia e pode causar exaustão se utilizado por muito tempo. Contudo, somente ele é capaz de tomar uma decisão financeira de forma racional, no sentido das finanças clássicas.

Quando utilizamos o sistema 1 para essa decisão financeira complexa que deveria ser racional, problemas acontecem, as decisões acabam não sendo puramente racionais por causa dos chamados “vieses cognitivos”, oriundos da aplicação de heurísticas pelo cérebro humano, especificamente pelo sistema 1.

Para ilustrar, um dos primeiros vieses identificados por eles, e talvez o mais emblemático, foi chamado de viés do enquadramento (framing, em inglês). Desde quando Aristóteles criou a lógica como disciplina de estudo, um dos pressupostos básicos é que se A=B, então necessariamente B=A. Em outras palavras, não importa a forma como eu pergunto ou a ordem dos argumentos, deve haver coerência sempre. Mas isso não é apenas bom senso?

Não exatamente. Mesmo em situações corriqueiras, identificaram incoerências na aplicação estritamente lógica desse preceito. Você foi convidado para tomar uma vacina, a qual possui eficácia de 70% e precisa pagar um valor monetário relativamente alto para o seu orçamento familiar se quiser ficar imunizado. A análise racional estrita seria a comparação do custo da vacina versus a possibilidade dela ser eficaz (70%) ou simplesmente não funcionar (30%), situação em que perderia o dinheiro.

O que espera, racionalmente, é que a pessoa decida por essa relação custo e benefício da vacina e seja coerente com essa decisão, independentemente de como seja feita a proposta comercial.

Revolução comportamental

As pesquisas de Kahneman e Tversky mostraram que as coisas não são tão simples assim. Quando a eficácia da vacina é apresentada na forma positiva, 70% de eficiência, a maioria das pessoas tende a aceitar a proposta. Mas quando a proposta comunica pelo lado negativo, que a vacina não funciona em 30% dos casos, a maioria das pessoas tende a rejeitar a proposta. As preferências foram alteradas por um simples jogo de palavras, ou da forma como as informações foram apresentadas.

Bem-vindo ao mundo dos vieses cognitivos, nesse caso do enquadramento. Resumindo, isso questionava a racionalidade proposta na teoria, mesmo do ponto de vista do conjunto dos agentes econômicos, afinal os erros “para mais” e “para menos” não se compensavam como a teoria pressuponha, já que com os vieses todos os agentes erravam da mesma forma. Como definiu Dan Ariely, ex-aluno de Kahneman,
era um comportamento “previsivelmente irracional”.

Essa revolução comportamental fincou raízes profundas na teoria e prática de finanças e investimentos. As pesquisas continuam. Estudar, conhecer e utilizar mecanismos para minimizar os efeitos dos vieses cognitivos reduzem os riscos dos investimentos e deveriam ser adotados por todos os investidores.

Afinal, é inteligência financeira.

Cortesia de genialidade Daniel Kahneman que acabou de nos deixar (e também de Amos Tversky), mas que seu legado permanece. Muito obrigado Danny e Amos.

Fonte: clique aqui.

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