Petróleo: com guerra em curso, cenário de preços é imprevisível

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O jornalista Donaldson Gomes entrevistou Anabal Santos Junior, da Abpip, no programa Política & Economia

As incertezas causadas pela guerra na Ucrânia são o principal obstáculo para uma redução nos preços dos combustíveis. Além de todo o horror, a invasão do território ucraniano pelo exército russo é também responsável pelo aumento nos preços de diversos produtos básicos, entre eles o petróleo, explica Anabal Santos Junior, secretário executivo da Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Petróleo e Gás Natural (ABPIP).

“O fim da guerra é fundamental por qualquer razão que se possa imaginar, inclusive por conta do efeito nos preços, que não é nem o motivo mais relevante”, destacou Anabal, durante entrevista para o jornalista Donaldson Gomes, do CORREIO, no programa Política & Economia, veiculado ontem. “Assim que a guerra terminar teremos mais clareza. Isso não pode durar muito mais tempo, é inconcebível nos dias de hoje isso que está acontecendo”, avalia.

Além disso, ele destaca a necessidade de um melhor planejamento no processo de transição energética do planeta e um aumento na produção de petróleo nos Estados Unidos. “Grandes mercados, como o americano, estão percebendo que ainda precisam investir no petróleo e isso deve trazer alguma estabilidade”, acredita. Se essas três condições se confirmarem, ele acredita que o produto pode retornar em breve a um patamar abaixo dos US$ 100.

“Agora se nada disso acontecer, será impossível fazer algum tipo de previsão”, avisa. Ele lembra que no início da pandemia o mundo vivenciou um período em que o preço real do produto chegou a estar negativo, algo nunca antes visto na história, ressalta. “Preço de petróleo costuma contradizer as nossas estimativas. Quando parece que vai subir, desce. Ou o contrário”, explica.

Impacto
Para ele, o cenário internacional é a principal explicação para a alta dos preços de combustíveis como diesel, gasolina e o gás de cozinha (GLP), mas ele defende uma atuação mais incisiva do Poder Público, em todas as esferas, para reduzir os impactos causados aos consumidores. “Tem a alta das commodities, de um modo geral, mas tem também as questões mais específicas do Brasil, como a carga tributária, que é uma discussão que estamos acompanhando”, diz.

“A gente precisa fazer uma escolha, a vida é feita delas. Eu não acho que a melhor solução seja congelar preços artificialmente, porém algo precisa ser feito, especialmente para aqueles que dependem do combustível para sobreviver”, aponta. Entretanto, complementa, tem a questão do gás de cozinha, cuja situação “é ainda mais grave” que a do diesel ou da gasolina, acredita.

Ao responder um questionamento da audiência sobre a responsabilidade dos governos pela alta, Anabal disse que o ambiente político “não contribui” com uma solução. “Em um momento como este, é claro que deveria haver um esforço para que essa situação fosse equacionada. Algo precisa ser feito e deve ser com a participação de todos”, defende. Ele cita entre os problemas a carga tributária, “que não incide apenas no petróleo”.

“Nós precisamos de um esforço conjunto, que seja pontual, neste momento de crise e o Poder Público precisa dar a sua parcela com desonerações em casos específicos”, defende. Para Anabal, os tributos que incidem sobre produtos ou serviços que possuem grande flutuação de preços poderiam ser ajustados temporariamente em um patamar mais baixo, sugere. Um exemplo é o caso do ICMS, diz.

As oscilações nos preços do petróleo têm um impacto maior na sociedade porque o produto é tanto um combustível, quanto matéria-prima para uma infinidade de coisas, lembra. “O mundo sem petróleo é inimaginável, para começar não estaríamos conversando aqui”, afirma. “A camisa que eu visto tem petróleo, os óculos que eu uso também, a energia é produzida com petróleo”, exemplifica.

Além de atender necessidades energéticas e servir para a produção de diversas cadeias, entram questões geopolíticas e a importância socioeconômica da atividade de produção.

Em termos de produção, o Brasil convive com dois cenários distintos. Na área do pré-sal, a produção tem curva ascendente. Mas na produção em terra e marítima, na área do pós-sal, o ritmo é decadente. “Nossa produção vem crescendo e vem ganhando importância. Somos o 9º produtor mundial, com pretensão de chegar a 5º em breve”, diz.

Mesmo a produção terrestre vem se recuperando em algumas regiões, a partir de programas de desinvestimentos da Petrobras e com a entrada de produtores independentes e cresceu 320% no país.

“Tem uma contribuição da produção independente nacionalmente, mas a Bahia vai um pouco na contramão disso, nossa produção está declinando”, avisa. Para ele isso se deveu a uma resistência à saída da Petrobras.

“Nós temos algumas preocupações em relação a algumas áreas, como o Polo Bahia, por exemplo, que é uma estrutura robusta, cujo processo de venda tem um desfecho incerto”, diz.

Independentes
Por mais que a crença popular reserve para o setor de óleo e gás a imagem de grandes conglomerados, muitas vezes multinacionais, o que torna o mercado saudável é a presença de players dos mais diversos portes, explica Anabal Santos.

“Tem coisas que você precisa comprar em um grande supermercado, mas tem outras que vale a pena buscar numa boa quitanda. Do mesmo modo, o tubarão, para ser eficiente, precisa ter peixinhos menores limpando os dentes dele”, compara. Segundo ele, os produtores independentes são importantes porque viabilizam projetos que podem não ser interessantes para os grandes produtores.