O amor começa

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Sim, o amor começa. Onde? Quando? Como?

O amor começa sorrateiro como uma serpente. Discreto como um gato. Espalhafatoso como um pavão. Começa envolto em desconfianças e incertezas, na bruma das madrugadas. Olha desconfiado as vitrines das lojas fechadas. As cadeiras sobre as mesas nos bares. Os insones calados nas janelas, as criaturas da noite, os primeiros madrugadores rumo à praia. O amor é notívago por natureza.

O amor começa como um soluço. Num segundo encontro. No segundo cigarro depois do sexo. Numa segunda-feira. Fortuito. Inconveniente como a visita de uma tia. Para depois se converter em arrebatamento. O amor começa num verso solto, dito ao acaso. Numa voz desafinada. Num poema de e.e. cummings em um filme de Woody Allen.

Prosaico, o amor começa na fila do pão, na fila da vacina. Numa batida de carro. Num apertar desajeitado de mãos, num beijo sem segunda intenção. Inocentemente como o mamar no peito, olhos nos olhos. Inadvertidamente como um esbarrão. Começa num flerte bobo, inquieto, que desemboca num número de telefone a duras penas memorizado – final 9098 ou 9095? O amor começa numa mensagem de zap recheada de emojis e kkkkks.

Amores ginasiais, paixões fevereiras, seios despontando sob o uniforme. Amores de juventude, incandescentes e fugazes, consumados em motéis baratos, bancos de automóvel, quartos emprestados. Amores maduros, tortuosos, cercados de temor. O amor pode começar na solidão ou numa vida plena. Na forma de uma epifania, um clarão, uma dor de cabeça. Muitas vezes na hora errada – ou seria a hora certa?

Naquele momento em que não esperamos mais o amor, ele aparece. Personificado em um antigo vizinho desinteressante, em uma linda moça dos tempos de juventude, hoje uma senhora amatronada. Amor temporão, sereno e redentor.

O amor começa como insanidade, vertigem, aleivosia. Não tem lucidez ou prudência. É perdulário, irresponsável, devastador. Esgueira-se pelas frestas, constrói-se feito teia. Arruina lares, exacerba vícios, enriquece terapeutas. Noites de insônia, prantos contidos, taquicardia. O amor não tem caráter nem boa índole. É um vagabundo ordinário, mas dotado de charme irresistível. Um vigarista vivido por Marcello Mastroianni.

Como canta Chico, o amor não tem pressa: ele pode esperar. Porque o amor não usa despertador, não é pontual. É preguiçoso, letárgico como uma baleia. Permanece imerso em algum oceano. Para então, um dia, emergir. O amor começa como um incêndio. Como um tiro. Como uma ferida que não cicatriza. Ele nos faz possessivos e possessos.

O amor começa sem alvo definido. Ele ronda, paira sobre nós que nem uma nuvem de poeira vinda do Paraguai. Começa quando olhamos um colar numa vitrine e imaginamos como ficaria bem em determinado pescoço. Aquele pescoço. Começa quando decoramos cada reentrância, cada concavidade do corpo amado. Passamos a venerar uma penugem, um sinal, uma cicatriz.

O amor começa quando o cheiro do outro faz lar no nosso ventre. Quando o gosto do outro fica impregnado em nossa gengiva. E mesmo muito tempo depois de velado, cremado ou sepultado, ele pode surgir, inesperado, na forma de uma brisa morna ou de uma dor de barriga. Então o passado regressa como uma lança. Porque o amor é a outra face da saudade.

Em todos os lugares e a qualquer hora, o amor começa. Para um dia acabar. Porque um dia ele simplesmente acaba, posto que é chama. Vira carvão. Então, quando menos a gente espera, o amor recomeça. Recomeça. E recomeça.