Moradores da Gamboa fazem ato ecumênico em homenagem a jovens mortos pela PM

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Moradores e líderes comunitários da Gamboa e familiares dos jovens Patrick Sapucaia, 16 anos, Alexandre dos Santos, 20, e Cleverson Guimarães Cruz, 22, mortos pela Polícia Militar (PM) na madrugada do dia 1º de março, fizeram um ato ecumênico em memória dos três nesta segunda-feira (7).

Em caráter de homenagem e também de protesto, o ato, que aconteceu na Avenida Contorno e contou com a presença de um padre e uma mãe de santo, foi realizado em dois horários diferentes: 13h e 15h. Tudo para homenagear as vítimas da ação da PM e ressaltar o anseio por justiça dos cidadãos.

A manifestação começou numa praça ao lado da Contorno, mas, por volta das 14h, o grupo se deslocou para a avenida, barrando a circulação de veículos nos dois sentidos. Através de boletim, a Transalvador registrou um congestionamento no local por conta do bloqueio. Um ato marcado para as 17h, um ebó coletivo preparado pela mãe de santo de uma das vítimas, foi realizado às 15h porque os manifestantes não conseguiriam manter a pista fechada até o final da tarde.

Durante o protesto, Ana Caminha, presidente da Associação de Moradores da Gamboa, expressou indignação pelos recorrentes atos violentos da polícia na comunidade. "Os policiais que deveriam dar segurança, que deveriam proteger, metem medo. Policiais de um sistema branco, de um sistema racista. […] É um absurdo que, morando no centro da cidade, a gente tenha medo de dormir", falou.

Silvana dos Santos, 48, mãe de Alexandre dos Santos, também esteve na manifestação e pediu que os PMs envolvidos fossem responsabilizados. “Só quero pedir justiça pela morte de meu filho. [..] A polícia poderia ter me entregado meu filho, mas não quis. Eles se acharam no direito de tirar a vida dele. Um filho amado, que me chamava de minha rainha. Quem deveria estar me defendendo, arrancou ele de mim. Não vou me calar nunca!”, disse aos prantos.

Ainda muito emocionada, Silvana questionou a versão da PM, que afirma ter sido recebida com tiros ao chegar na comunidade no dia das mortes.

“Em cada bairro que eles entram, fazem isso e dizem que é troca de tiro. Cadê vocês que não tem uma bala no corpo de vocês? Não tem bala nenhuma no corpo de vocês e abrem a boca pra dizer que é troca de tiro"

Integrante do grupo de mulheres da Gamboa de Baixo, Joelma Souza, 38, agradeceu as diversas pessoas que compareceram ao ato em homenagem às vítimas. “Estamos ainda muito consternados e assustados com o que aconteceu, mas esse ato de hoje nos traz essa segurança de saber que não estamos sozinhos, que pessoas de fora da Gamboa também estão lutando com a gente”, desabafou.

Nessa terça-feira (8), moradores da Gamboa, familiares das vítimas, representantes do Ministério Público da Bahia (MP-BA) e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) vão se reunir em frente à sede da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social para pedir que esse caso não caia no esquecimento.

“Nós queremos saber qual rumo o Tribunal de Justiça vai dar pra esse caso. Nós queremos dormir em paz. Uma das esposas da vítimas está alugando a casa com medo de dormir lá e nós não queremos isso, queremos que as pessoas se sintam seguras”, disse Joelma Souza.

Após a morte dos três jovens, a Defensoria Pública do Estado da Bahia (DPE/BA) solicitou, em ofício enviado à Secretaria de Segurança Pública (SSP), informações e dados atualizados sobre o processo licitatório de aquisição e implementação de câmeras de filmagem nas fardas policiais.

“Nosso papel é de acolhimento e orientação. E, uma vez finalizado o inquérito policial, existe também a possibilidade de ingressarmos com um pedido de demandas indenizatórias. A Defensoria Pública representa o interesse de vocês, familiares, perante a justiça”, destacou a defensora pública Eva Rodrigues.

*Com supervisão da subeditora Fernanda Varela. Colaborou Laiz Menezes