60 anos do golpe militar – 30/03/2024 – Celso Rocha de Barros

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60 anos do golpe militar – 30/03/2024 – Celso Rocha de Barros

Neste domingo, 31 de março de 2024, faz 60 anos que a UDN aderiu à luta armada.

Derrubaram um presidente legítimo e prometeram eleições presidenciais em 1965. A eleição só aconteceu em 1989. Quem tinha 46 anos votou para presidente pela primeira vez junto comigo, que tinha 16.

O regime militar durou 20 anos, que corresponderam aos últimos 20 anos da “Era Vargas”. Foi uma época de crescimento econômico rápido, como haviam sido os 20 anos de democracia entre 1945 e 1964. Muitos países têm alto crescimento em fases como essas, marcadas por êxodo rural e outras transformações sociais típicas do início do processo de desenvolvimento.

Na democracia de JK, entretanto, a desigualdade de renda caiu. Na ditadura de Médici, aumentou. A democracia de JK entregou o Brasil para a ditadura com uma dívida externa de pouco mais de US$ 3 bilhões. A ditadura de Médici entregou o Brasil de volta para a democracia com uma dívida externa de US$ 100 bilhões.

Durante o período de alto crescimento da ditadura, as greves eram proibidas. A ditadura reajustava os salários por um índice de inflação falsificado. Em 1977, a Folha teve acesso a um relatório do Banco Mundial com o índice real de inflação, bem maior que o divulgado pela ditadura. Foi denunciando essa mutreta que Lula se tornou conhecido dos brasileiros.

Nos grandes projetos de desenvolvimento realizados com imprensa censurada e Judiciário castrado, o cartel das empreiteiras estabeleceu seu controle sobre a política brasileira. A Odebrecht, por exemplo, só entrou para o clube das grandes empreiteiras quando a ditadura lhe entregou a construção das usinas nucleares brasileiras, 2 das 3 sem licitação. O cartel só foi desmantelado graças à versão vitaminada do Ministério Público criado pela Constituição de 1988.

O leitor pode perguntar: mas, então, a ditadura não fez nada de bom? Fez. Criou o Banco Central, a Embrapa, a aposentadoria rural. E aí o leitor pode pensar: pô, pena que a ditadura não acabou logo depois de fazer essas coisas, ou antes de se endividar demais, ou antes do AI-5.

Então, filho: esse é um dos motivos pelos quais o negócio se chama ditadura. Ele não vai embora depois que a maioria já encheu o saco. Se você duvida, volte no tempo e defenda o impeachment do Costa e Silva. Tente vencer eleições contra o Médici. Investigue o que o cartel das empreiteiras está fazendo sob o Geisel.

Muitos jovens que não podiam fazer nada disso radicalizaram e aderiram à luta armada. Um grande número deles foi torturado até a morte pela ditadura. Em 68, eu provavelmente teria me juntado a eles.

Vire o ano de cabeça para baixo e, em 89, lá estava eu no início do processo pelo qual a democracia brasileira, através de uma série de sucessos, me transformaria em um pacífico social-democrata.

Imagine como a geração que viveu a ditadura gostaria de ter tido a chance de derrotar o golpe de 64, prender os golpistas, e superar a crise política do início dos anos 60 dentro da democracia.

Bom, em 2022, 1964 perdeu. Nós temos a chance de prender golpistas e superar nossa crise política dentro da democracia. Não podemos desperdiçar esse privilégio, pelo qual tanta gente boa teria dado a vida 60 anos atrás.


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